terça-feira, 18 de agosto de 2009
Ocupado...
A esposa ligava a cada cinco minutos. Era para lembrar do vencimento da conta do telefone, do colégio dos filhos, de que ele ainda não havia passado no supermercado nem feito o depósito na conta da mãe dela. Ligava novamente, agora para saber a que horas ele chegaria em casa. O filho lhe ligava perguntando se já havia ido buscar o computador na assistência técnica. A filha, ligando para saber se ele havia encontrado àquele condicionador de cabelos que a amiga lhe indicara. A empregada ligava para lembrar que o sabão em pó havia acabado e se ele poderia trazer o pagamento dela no final do dia. Sem pensar muito, levantou de sua mesa no escritório, plantou o celular no vaso de arruda e saiu a passos lentos, falando sozinho...
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
LPs - Álbuns em forma de arte
Eu sempre achei que as capas dos antigos LPs eram verdadeiras obras de arte. Na minha memória, ainda vivem algumas das imagens estampadas em capas, contracapas e no interior dos antigos álbuns. O velho álbum branco dos Beatles, foi um marco, assim como a histórica foto do quarteto atravessando a rua na faixa de segurança, em Abbey Road. As imagens dos shows do Deep Purple no Japão, no tradicional Made in Japan marcaram a minha adolescência. Assim como os sobretudos dos músicos do Supertramp na contracapa e as mãos segurando as grades flutuando no espaço em A crime of a Century, os rostos dos músicos do Deep Purple dentro da taça de vinho em Come Taste the Band, nas velas acesas em Burn e no meteoro de Fireball. O aperto de mãos incendiário no Wish You Were Here, o feixe de luz atravessando o prisma em The Dark Side of the Moon, a vaca holandesa de Atom Heart Mother, a orelha de Meddle e o porco voador de Animals, do Pink Floyd. Estas são algumas lembranças de capas de antigos discos que nunca me saíram da cabeça. Era um costume meu ir ao centro da cidade todos os sábados pela manhã e ficar bisbilhotando as lojas de disco, até encontrar àquele ou àqueles que eu levaria para casa naquele final de semana. Ainda hoje, guardo essas preciosidades comigo. Os atuais CDs nos proporcionam apenas “fotos 3x4”, ao contrário das verdadeiras telas em exposição na forma de capas, nas prateleiras das antigas lojas. Sou feliz por ter visitado estas verdadeiras exposições de arte nos sábados da minha juventude.
sábado, 15 de agosto de 2009
Woodstock, 40 anos...
Sexta-feira, 15 de agosto, sábado, 16 de agosto e domingo, 17 de agosto de 1969. Esses eram os três dias em que os jovens da época pretendiam mudar o mundo. Hoje, é comemorado o aniversário de quarenta anos do festival de rock mais famoso de todos os tempos. Em uma fazenda em Bethel, ao norte de Nova York, aconteceu em um chuvoso final de semana, o festival que reuniu quase meio milhão de jovens. Com o movimento hippie e a contracultura no auge, a juventude queria mudar o mundo com flores, drogas, paz e amor. Grandes nomes do rock da época passaram por Woodstock. Eram nomes como Joan Baez, Janis Joplin, Creedence Clearwater Revival, The Who, Jefferson Airplane, Joe Cocker, Ten Years After, Johnny Winter, Crosby, Stills, Nash &Young e Jimi Hendrix, entre outros. Ainda hoje, é possível ouvir o eco das guitarras vindo do palco de Woodstock…
Moda, eu?
Eu havia prometido a mim mesmo que não iria fazer isso! Além de não gostar nem um pouco de fazer lanche nessas cadeias de lanchonetes “fast food” internacionais, também sempre fui contra modismos. Eu me acharia um idiota se um dia me visse naquela fila enorme para pedir um daqueles sanduíches de nome americanizado. Outra coisa que eu nunca dei importância, foi para as roupas e os tênis da moda. Coisas com nomes de “air” ou “shocks”, sempre passaram ao largo. Não é que no dia dos pais, meus filhos me deram de presente um desses “shocks”? Como dizer não para eles? Hoje à tarde, me vejo fazendo uma caminhada pelas ruas, usando o tal tênis. O que estará acontecendo? Essas marcas estão literalmente dominando o mundo ou eu estou mudando?
E agora?
Por trás do monitor e diante de seu teclado, ele era o comandante. Bate papos, alegrias, sorrisos, relacionamentos. Tudo ia bem, até àquele momento. Um calafrio percorreu a espinha e o suor pela testa, escorreu. Ali, ao seu lado, estava ela. Ao vivo e a um toque da mão, lhe perguntando: “quer namorar comigo?”
Então...?
Nunca toquei rock’n roll,
Nunca sorri de verdade,
Nunca corri descalço,
Nunca ri com vontade,
Nunca me contentei
Com a metade...
A guitarra ainda na caixa,
O sorriso enferrujou,
O todo se partiu,
A alegria acabou
Enfim, afinal
Do que preciso?
Qual é o meu destino?
Quem eu sou?
Nunca sorri de verdade,
Nunca corri descalço,
Nunca ri com vontade,
Nunca me contentei
Com a metade...
A guitarra ainda na caixa,
O sorriso enferrujou,
O todo se partiu,
A alegria acabou
Enfim, afinal
Do que preciso?
Qual é o meu destino?
Quem eu sou?
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Troque um príncipe por um sapo!
Em relação ao texto (muito bom) de hoje do blog "Literatura e diálogos" (http://www.literaturaedialogos.blogspot.com/), de minha amiga Patricia Castro, sobre a dificuldade que enfrenta hoje em dia, quem quer ter um relacionamento sério e que seria vantagem para as mulheres trocar um "príncipe" por um "sapo", tenho a dizer o seguinte: como bom sapo que sou, fiquei feliz com essa possibilidade e resolvi postar aqui um texto meu, escrito já há algum tempo. Quando ele foi escrito, percebam que eu já pensava nessas coisas...
Um abraço a todos!
Sapo
Se até o príncipe
Que é rico e encantado
Tem lá os seus dias
Em que acha a vida um saco
Por que eu
Com minha vida de sapo
Não me conformo
E tento ser feliz?
21/02/2007
13h 49min
Um abraço a todos!
Sapo
Se até o príncipe
Que é rico e encantado
Tem lá os seus dias
Em que acha a vida um saco
Por que eu
Com minha vida de sapo
Não me conformo
E tento ser feliz?
21/02/2007
13h 49min
Poesia e solidão...
Acho que quase todo poeta é, de alguma forma, um solitário. Assim sendo, passa as horas acalentando o seu vazio, entregue aos versos e as rimas. Cada novo verso, marca a passagem de mais uma hora, de mais um dia. Embora me esforce, eu ainda não entendo bem como poesia rima com solidão...
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Beleza pura...
Eu sempre tive receio de me aproximar de mulheres bonitas. Ficava imaginando não saber o que falar e ficar sem graça. Isso, até o teu sorriso se dispor a me ouvir...
Em transe...
Senti um imenso alívio ao fechar os olhos e assim permanecer por alguns minutos. Ou teriam sido horas? As dores passaram, os problemas desapareceram, as mágoas foram esquecidas e tudo ficou em paz... Quando eu já estava acostumando com esse paraíso, volto. Abro os olhos e me vejo diante do teu olhar lindo, a me fitar. Já fiquei em dúvida de onde é melhor estar...
Não mais...
Já não sinto mais
Nem nada
Nem ninguém...
Sentimentos,
Tristezas,
Lamentos...
Já não tenho mais
Nem você,
Nem minha vida
Também...
Já não posso mais
Voltar,
Adiar,
Tentar,
Chorar...
Já não sinto mais
Nem piedade,
Nem saudade...
Nada
Não mais...
Nem nada
Nem ninguém...
Sentimentos,
Tristezas,
Lamentos...
Já não tenho mais
Nem você,
Nem minha vida
Também...
Já não posso mais
Voltar,
Adiar,
Tentar,
Chorar...
Já não sinto mais
Nem piedade,
Nem saudade...
Nada
Não mais...
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Apagada magia...
Já não falo mais
Penso, as vezes
Sinto, um pouco
Reflito, muito
Imagino, demais
Arrependimento...
Tristeza...
Incerteza...
Apagada magia
Tua imagem já some
Da minha mente
Vida amarga...
Sem prazer,
Como meu pensamento
Moroso,
Como meu sentimento
Escabroso,
Como meu arrependimento
As palavras já faltam
Os versos rareiam
As sílabas se arrastam
Quase tudo acabando
Quase tudo se apagando
Também a poesia...
25/07/2009
20h 05min
Penso, as vezes
Sinto, um pouco
Reflito, muito
Imagino, demais
Arrependimento...
Tristeza...
Incerteza...
Apagada magia
Tua imagem já some
Da minha mente
Vida amarga...
Sem prazer,
Como meu pensamento
Moroso,
Como meu sentimento
Escabroso,
Como meu arrependimento
As palavras já faltam
Os versos rareiam
As sílabas se arrastam
Quase tudo acabando
Quase tudo se apagando
Também a poesia...
25/07/2009
20h 05min
quarta-feira, 8 de julho de 2009
O astro menino
Ele levou a vida de uma forma diferente dos outros mortais. Desde pequeno, demonstrou talento diferenciado para a música e para a dança. Fez sucesso nos cinco continentes e conquistou fãs ao redor do mundo. Apesar do tempo passar e torna-lo adulto, recusava-se a envelhecer. Queria, insistentemente, continuar criança. E, fez de tudo para isso. Morou na Terra do Nunca, teve seu zoológico e parque de diversões particulares e se cercou delas, as crianças.
Suas apresentações aglomeravam milhares de pessoas, sempre. A histeria e a alegria de seus súditos sempre foi contagiante. Há poucos dias, recebemos a noticia de sua morte. Ao redor do globo, muitos se sentiram órfãos, viúvas e desamparados. Podemos dizer que a comoção tomou conta do planeta, sem medo de errar. Aquele que lotou estádios e ginásios em vida, o fez também na morte. Milhões de pessoas, de todos os países, disputaram pela Internet, um ingresso para participar, ao vivo, do espetáculo de sua despedida em Los Angeles. Os que foram sorteados, foram ao delírio. Todos os cuidados foram tomados para o controle de acesso ao ginásio, onde se daria o adeus ao ídolo. Não bastava ter o ingresso, mas era necessário ter presa ao pulso, uma pulseira de identificação que credenciava a entrada no local. As ruas em volta, o trânsito e a cidade praticamente pararam. Aquele que reinou absoluto nos palcos em vida, estava ali em frente ao mesmo, dentro de um esquife dourado. A família, músicos, cantores, atores, jogadores de basquete e os seus súditos estavam ali por ele e para ele. Aqueles que não puderam estar presentes, assistiram a tudo em telões espalhados ao redor do mundo. No local, emoção em alta, música no palco e lágrimas nos milhares de olhos mais do que abertos. Clima de tristeza e comoção mundial, por mais incrível que possa parecer. O astro, o ídolo se foi para nunca mais voltar. Mas, não deve ser verdade! Eu, como não o vi depois de morto, ainda acredito que tudo seja mais uma peraltice do astro menino. Quando menos se esperar, ele reaparece. E, com seus passos leves e o sorriso aberto, vai convidar a todos para tentar dançar o moonwalk...
Suas apresentações aglomeravam milhares de pessoas, sempre. A histeria e a alegria de seus súditos sempre foi contagiante. Há poucos dias, recebemos a noticia de sua morte. Ao redor do globo, muitos se sentiram órfãos, viúvas e desamparados. Podemos dizer que a comoção tomou conta do planeta, sem medo de errar. Aquele que lotou estádios e ginásios em vida, o fez também na morte. Milhões de pessoas, de todos os países, disputaram pela Internet, um ingresso para participar, ao vivo, do espetáculo de sua despedida em Los Angeles. Os que foram sorteados, foram ao delírio. Todos os cuidados foram tomados para o controle de acesso ao ginásio, onde se daria o adeus ao ídolo. Não bastava ter o ingresso, mas era necessário ter presa ao pulso, uma pulseira de identificação que credenciava a entrada no local. As ruas em volta, o trânsito e a cidade praticamente pararam. Aquele que reinou absoluto nos palcos em vida, estava ali em frente ao mesmo, dentro de um esquife dourado. A família, músicos, cantores, atores, jogadores de basquete e os seus súditos estavam ali por ele e para ele. Aqueles que não puderam estar presentes, assistiram a tudo em telões espalhados ao redor do mundo. No local, emoção em alta, música no palco e lágrimas nos milhares de olhos mais do que abertos. Clima de tristeza e comoção mundial, por mais incrível que possa parecer. O astro, o ídolo se foi para nunca mais voltar. Mas, não deve ser verdade! Eu, como não o vi depois de morto, ainda acredito que tudo seja mais uma peraltice do astro menino. Quando menos se esperar, ele reaparece. E, com seus passos leves e o sorriso aberto, vai convidar a todos para tentar dançar o moonwalk...
terça-feira, 7 de julho de 2009
Simplicidade
Alegria quase infantil, é a sentida pelo velho agricultor. Já com idade avançada, ainda cuida da terra, de sol a sol. E, termina os dias sorrindo, feliz ao ver o crescimento de seus pés de alface...
sábado, 27 de junho de 2009
Mortal...
Personagem,
Como que desenhado...
Inventado,
Acima,
Além,
Um dia, porém
Assustados,
Percebemos
Ídolo também morre...
Como que desenhado...
Inventado,
Acima,
Além,
Um dia, porém
Assustados,
Percebemos
Ídolo também morre...
O vazio na noite...
Noite de 25 de junho de 2009. Garoa caindo, eu no carro, ainda no trânsito da cidade. De repente, no rádio, ouço a noticia: “Michael Jackson morreu”! O baque e a sensação de perda é instantânea. Soa como se recebêssemos a notícia que aquele amigo, jovem e muito talentoso com a música, a dança e a arte, querido por todos, tivesse nos deixado para sempre e sem aviso. E, pior, com a concreta impossibilidade de voltar ao nosso convívio. Olho para fora e sinto como se tudo tivesse ficado mais triste. As pessoas, as ruas, as calçadas e as luzes perderam um pouco de seu brilho. Na hora, eu não percebi, mas a garoa insistente caindo em pequenas gotas no vidro do carro, já era um indício que a noite também chorava...
Fria solidão...
A fina chuva chega com a escuridão da noite de inverno. Casa e cama, vazias. A tua ausência esfria também a minha alma...
São João!
Fogueira
Quentão
Bandeirinhas
Quadrilha
Pipoca
Pinhão
Noite fria
Alegria aquecida
Brasas no coração...
Quentão
Bandeirinhas
Quadrilha
Pipoca
Pinhão
Noite fria
Alegria aquecida
Brasas no coração...
Óculos
Por trás daquelas lentes transparentes, ela me observa. E eu fico a pensar, por que ela se esconde assim...
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Os olhos verdes
Quando ela passava, ele a observava, maravilhado. Aqueles olhos verdes! Ele jamais havia visto outros iguais! Mas, os olhares nunca se encontraram. E, todas as noites, ele dormia com a solidão...
terça-feira, 9 de junho de 2009
O estranho mundo em que estamos vivendo
Hoje, depois de muito tempo, fui até o centro da cidade. Uma manhã de sábado, ensolarada e convidativa, me convenceu. Ao mesmo tempo em que passei pelos antigos prédios que me viram chegar a essa cidade há muito tempo, não pude deixar de notar o que se passa nas ruas. As mais diversas e diferentes figuras perambulam pelas calçadas e calçadões. Percebe-se, que hábitos de muitos séculos atrás, estão em voga. A exemplo do que acontecia em antigas e desaparecidas civilizações, nota-se as peles impregnadas de tinta, formando ora desenhos tribais, ora traços modernos, com nomes de pessoas, de amores ou simplesmente desenhos abstratos. O hábito quase pré-histórico, de furar a pele com adornos, voltou. Só não é mais feito com ossos pontiagudos, e sim, com artefatos metálicos. Mas, o princípio da barbárie, é o mesmo. Jovens, em bando, municiados com mochilas e os seus indefectíveis bonés, marcam território e impõe sua alegria ou algazarra por onde passam. O bom, é que alguns pais ainda passeiam com seus filhos pequenos no colo ou em carrinhos. Os pombos ainda sobrevoam as nossas cabeças em busca de pipoca ou algum resto de bolacha que se lhes possa ser oferecido. Artistas de rua fazem o seu show com o corpo inteiramente pintado de prata. Mímicos, vestidos de palhaço, arremedam os passos e os movimentos dos transeuntes, ora divertindo, ora irritando. Ainda se encontram nas vitrines, ternos e roupas caras e que são para o consumo de uns poucos. Já os alto falantes das grandes lojas populares, não deixam nossos ouvidos em paz, com suas ofertas “imperdíveis”. Os ônibus e os automóveis andam em desabalada carreira, fazendo manobras que lembram verdadeiros números de circo, por sua audácia e ousadia. Nos sinais vermelhos, os motoristas são abordados por entregadores de panfletos que, ao mesmo tempo em que estão ganhando o seu suado dinheiro, nos oferecem de tudo. Essas ofertas vão desde conserto de máquinas de lavar até apartamentos de luxo em bairros nobres, que a grande maioria que anda nas ruas, nem sabe onde se situam. Músicos de rua tentam se fazer ouvir, enquanto pintores expõem seus quadros, tentando vender sua arte. Olhando para cima, vejo um avião que, fazendo acrobacias, escreve com fumaça branca no céu, uma sílaba que dá nome a uma nova empresa que está se estabelecendo na cidade. É ou não, um estranho, diversificado, colorido, ruidoso e por vezes bárbaro mundo, esse no qual estamos inseridos? Após ver isto tudo, voltei para casa. Ufa! Prefiro ainda, esse meu pequeno, confortável e seguro mundinho. Pensando bem, o que eu perdi lá fora?
quarta-feira, 13 de maio de 2009
São Lourenço do Sul
Areias claras
Águas mansas
Costa doce
Espíritos da natureza
Vós sois Ondinas
De areias mais grossas
De águas mais rasas
Estão vós, mitológicas Nereidas
Até onde o sol se põe
Onde me escondo
Onde tu me banhas
Lavas a alma minha
Onde lambes o Carahá
És tu, minha Barrinha
Águas mansas
Costa doce
Espíritos da natureza
Vós sois Ondinas
De areias mais grossas
De águas mais rasas
Estão vós, mitológicas Nereidas
Até onde o sol se põe
Onde me escondo
Onde tu me banhas
Lavas a alma minha
Onde lambes o Carahá
És tu, minha Barrinha
terça-feira, 12 de maio de 2009
Lagoa dos Patos
Minha lagoa
Imenso mar doce
Praias pacatas
Brancas areias
Esguios coqueiros
Sentinelas de pedra
a vigiar nosso banho
Mornas águas,
onde navegam lembranças,
onde se afogam as mágoas,
onde as velas se içam,
onde as redes se tramam,
onde salgam as águas,
onde lavo a alma,
onde sou teu filho,
onde vejo famílias,
onde se abrem sorrisos
Estuário da vida
Berço da minha existência...
Imenso mar doce
Praias pacatas
Brancas areias
Esguios coqueiros
Sentinelas de pedra
a vigiar nosso banho
Mornas águas,
onde navegam lembranças,
onde se afogam as mágoas,
onde as velas se içam,
onde as redes se tramam,
onde salgam as águas,
onde lavo a alma,
onde sou teu filho,
onde vejo famílias,
onde se abrem sorrisos
Estuário da vida
Berço da minha existência...
domingo, 3 de maio de 2009
Mulher de quarenta
Admiração... Não! É mais que admiração. Eu tenho um sentimento muito especial em relação às mulheres de quarenta anos. Diferentemente das meninas, elas possuem o seu brilho próprio, discreto e exuberante. São lindas, charmosas, especiais. As suas marquinhas de expressão mostram o caminho já percorrido e traçam as trilhas para o que ainda irão viver. Vestem-se com indescritível bom gosto e valorizam suas formas com àquele vestido, echarpe, bolsa ou sapato escolhidos a dedo para toda a ocasião. Sabedoras de suas fraquezas, conscientes de seus erros passados e esperançosas em relação ao futuro, são amadurecidas, sem serem amargas. São lindas, apenas exibindo a expressão serena do rosto. Abertas ao amor, mas precavidas. Esperançosas, mas com um pouquinho de receio, nunca confessado. Encaram tudo com o belo sorriso aberto, iluminando quem se põe em seu caminho. Elas são belas, elas são charmosas, elas são sensuais, elas são lindas! Todo o meu carinho, amor e respeito às mulheres de quarenta anos! Eu amo uma mulher de quarenta anos! Ainda bem que você existe!
Cada um no seu quadrado!
Sim, cada um no seu maldito quadrado. Cada um enclausurado em seu quarto. Cada um preso aos seus pensamentos, traumas e mágoas. Um ouvindo música, o outro tentando dormir para não pensar na vida e o terceiro acordado, com os olhos vidrados, pensando exatamente na desgraça em que se transformou também a sua vida! Em raros momentos de lucidez, consegue pensar no que está fazendo com a vida dos outros, também. As músicas vindas do quadrado escuro, são sempre as mesmas. Elas se repetem, invadindo os ouvidos e irritando os cérebros cansados. Por vezes este, o da música, canta. Talvez na tentativa de abafar seus pensamentos. O que dormia, já com os olhos inchados, não consegue mais adormecer. Quem sabe a técnica de contar carneirinhos não poderia ajudar? São três criaturas incrustadas em seu cubículos quadrados! Quadrado é o quarto, transformado em cela solitária. Quadrado é o pensamento. Quadradas são as grades que os prendem às suas próprias mentes. Perdido é também o olhar em direção ao futuro. Perspectivas de um amanhecer melhor? Não! Pois, cada um está só, enclausurado em seu quadrado! Coitados...
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Enquanto isso, no consultório...
- Quais são os sintomas?
- Doutor, eu é que vou perguntar ao senhor...
- Até quando devemos ir levando tudo de arrasto na vida?
- Como assim?
- Até quando devemos deixar a vida nos levar de arrasto, como se fôssemos um tronco seco de madeira na corredeira? Até quando uma única criatura deve, pode ou consegue resistir às pressões de ser pai, mãe, profissional, patrão, empregado, namorado, estudante, paciente, motorista, amigo, inimigo e mais outro número igual de coisas das quais eu não lembro agora?
- E o que você sente?
- As pernas travam, os braços se enrolam, o coração dispara, a mente bloqueia e vem a vontade de parar, de não sair do lugar...
- Aliás, foi o que fiz ontem, travei...
- Hummm...
- Continue...
- Os filhos crescem, as preocupações aumentam, o bolso fica vazio, a namorada reclama de ausência, de falta de diálogo, de atitudes, de vontade, o professor exige trabalhos manuscritos, são impostos prazos, condições, o cachorro quer comer bolacha e eu não sei se devo dar, o telefone não para de tocar com alguém oferecendo um novo cartão de crédito, cobrando a prestação que ainda não foi paga e a empresa onde você trabalha por três décadas fala em demissão exatamente pelo fato de você estar lá há tanto tempo...
- Por onde começar a tentar resolver, doutor?
- Hummm...
- Isso é normal, doutor?
- Me diga... Isso acontece sempre?
- Bem, nos últimos tempos, apenas quando acordo e abro os olhos pela manhã...
- Doutor, eu é que vou perguntar ao senhor...
- Até quando devemos ir levando tudo de arrasto na vida?
- Como assim?
- Até quando devemos deixar a vida nos levar de arrasto, como se fôssemos um tronco seco de madeira na corredeira? Até quando uma única criatura deve, pode ou consegue resistir às pressões de ser pai, mãe, profissional, patrão, empregado, namorado, estudante, paciente, motorista, amigo, inimigo e mais outro número igual de coisas das quais eu não lembro agora?
- E o que você sente?
- As pernas travam, os braços se enrolam, o coração dispara, a mente bloqueia e vem a vontade de parar, de não sair do lugar...
- Aliás, foi o que fiz ontem, travei...
- Hummm...
- Continue...
- Os filhos crescem, as preocupações aumentam, o bolso fica vazio, a namorada reclama de ausência, de falta de diálogo, de atitudes, de vontade, o professor exige trabalhos manuscritos, são impostos prazos, condições, o cachorro quer comer bolacha e eu não sei se devo dar, o telefone não para de tocar com alguém oferecendo um novo cartão de crédito, cobrando a prestação que ainda não foi paga e a empresa onde você trabalha por três décadas fala em demissão exatamente pelo fato de você estar lá há tanto tempo...
- Por onde começar a tentar resolver, doutor?
- Hummm...
- Isso é normal, doutor?
- Me diga... Isso acontece sempre?
- Bem, nos últimos tempos, apenas quando acordo e abro os olhos pela manhã...
terça-feira, 21 de abril de 2009
Os invernos do meu passado
Que saudades dos invernos de décadas atrás! Eram tempos em que o frio era enfrentado com distinção e elegância, em especial no Sul do Brasil, de onde vêm essas minhas recordações. Usavam-se sobretudos, chapéus e as charmosas capas de gabardine nos dias de chuva. A conversa corria animada, enquanto se tomava um delicioso cafezinho no balcão do acolhedor Café Ponto Chic em São Lourenço do Sul ou no tradicional Café Aquário em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Os dias começavam a ser aquecidos por uma boa conversa com os amigos, naquelas geladas manhãs de julho. Os mais diversos assuntos eram discutidos nesses momentos. Política, economia, os resultados dos últimos jogos de Grêmio e Internacional e até a temperatura da noite anterior eram amplamente debatidos nas manhãs daquelas saudosas décadas de sessenta e setenta. Àquelas eram épocas em que a civilidade e a amizade eram vividas em despretensiosos bate-papos cotidianos, em um tempo em que até o frio tinha mais graça do que tem hoje.
Sonzeira operária
Quem vê aquela banda detonando em cima do palco, fazendo aquela sonzeira, nem desconfia. Os músicos cabeludos assinam contratos de prestação de serviço e existem horários para jantar, antes dos shows. Os sorrisos são ensaiados para as fotos e os autógrafos nos CD’s são feitos em série. A correria é grande, pois a gravadora quer outro álbum para o final do ano! O som de garagem se transformou em empresa! Já não se faz o bom e velho rock apenas por prazer, como antigamente...! Mesmo assim, basta que as luzes se apaguem e comecem os primeiros acordes, para esquecermos isso e comecemos a fazer parte do espetáculo. Afinal, antes de um estilo musical, o rock é uma filosofia de vida e uma forma única de enxergar esse mundo que nos cerca. É, antes de tudo, pura energia!
Ctrl C / Ctrl V
Sem sombra de dúvidas, uma das maiores invenções da era moderna, é o Ctrl C / Ctrl V! Atualmente, se precisarmos copiar ou substituir um texto, o fazemos praticamente sem esforço, simplesmente utilizando o Ctrl C / Ctrl V. Em um piscar de olhos, lá está o novo texto prontinho, sem a necessidade de reescrevê-lo manualmente. Redações, trabalhos escolares, relatórios científicos, enfim, tudo ficou muito mais fácil de ser feito depois do mágico surgimento do Ctrl C / Ctrl V. Este recurso, realmente veio para facilitar tudo. Eu estive pensando: e se pudéssemos utilizar o Ctrl C / Ctrl V também no dia a dia de nossas vidas? Você está triste? Dê um Ctrl C / Ctrl V e substitua este momento atual por aquele outro, vivido ontem, onde tudo era só alegria. A namorada te deixou? Aplique rapidamente um Ctrl C / Ctrl V e retorne aos momentos de romance e paixão de vocês. O seu gerente está uma fera com você? Ctrl C / Ctrl V nele! E, reviva os momentos em que ele estava até pensando em te dar uma promoção. Aquelas roupas já não servem mais? Regime? Que nada! Puxe da manga um Ctrl C / Ctrl V e volte à antiga forma! Diariamente, nós veríamos comerciais de TV dizendo: Ctrl C / Ctrl V! Não deixe de utilizar o seu! Você verá que a vida não será a mesma depois dele! Experimente! E aí? Não seria legal? Nesse mundo onde a tecnologia avança tão rápido, você duvida que isso possa acontecer? Hã? Com esse barulho, acabei acordando...
Amor de inverno
Vento varrendo ruas geladas
Folhas secas voando sem direção
Camas aquecidas pelo fogo da paixão...
Folhas secas voando sem direção
Camas aquecidas pelo fogo da paixão...
segunda-feira, 20 de abril de 2009
domingo, 19 de abril de 2009
Por quê?
Era uma vez, um garoto que permanecia mudo dentro da sala de aula
Todos, professores e colegas, perguntavam por quê
Até que um dia, com esforço, ele falou
Que a gagueira o forçava a ser assim
Ele não sabia por quê
Mas ela sempre estivera com ele
E que apenas sempre fora assim...
Era uma vez, uma menina que nunca ia às festas das amigas
As mães e as próprias amigas, perguntavam por quê
Um dia, após muito chorar, ela falou
Que não tinha dinheiro para comprar vestidos
Ela não sabia por quê
Sua família era pobre
E que, em sua casa sempre fora assim...
Era uma vez, um menino que aparecia com marcas roxas na pele
Todos, mestres e colegas, perguntavam por quê
Em certa manhã, aos prantos, ele falou
Que apanhava de seus pais em casa
Ele não sabia por quê
Mas que todos os dias isso se repetia
E que apenas sempre fora assim...
Por quê?
* Inspirado na canção MMM MMM MMM MMM da banda Crash Test Dummies
Todos, professores e colegas, perguntavam por quê
Até que um dia, com esforço, ele falou
Que a gagueira o forçava a ser assim
Ele não sabia por quê
Mas ela sempre estivera com ele
E que apenas sempre fora assim...
Era uma vez, uma menina que nunca ia às festas das amigas
As mães e as próprias amigas, perguntavam por quê
Um dia, após muito chorar, ela falou
Que não tinha dinheiro para comprar vestidos
Ela não sabia por quê
Sua família era pobre
E que, em sua casa sempre fora assim...
Era uma vez, um menino que aparecia com marcas roxas na pele
Todos, mestres e colegas, perguntavam por quê
Em certa manhã, aos prantos, ele falou
Que apanhava de seus pais em casa
Ele não sabia por quê
Mas que todos os dias isso se repetia
E que apenas sempre fora assim...
Por quê?
* Inspirado na canção MMM MMM MMM MMM da banda Crash Test Dummies
O paraíso dos menestréis
E se, ao saírem dessa vida, todos os menestréis fossem para um único lugar? Seriam poetas, cantores, músicos e outros artistas reunidos no mesmo canto do paraíso. Ouvir-se-ia versos, cantos, acordes, estrofes e notas musicais em um único e eterno espetáculo. A eternidade certamente, não seria mais a mesma... Quem teria medo de ir para lá?
Do verde ao inferno
Se o homem pudesse quantificar toda a vida que existe na floresta, jamais provocaria incêndios e queimadas nesse mundo verde. O fogo, avassalador, consome tudo o que vê pela frente. Os animais que conseguem, fogem desesperados. As árvores, plantas menores, ervas, insetos e microorganismos são impiedosamente consumidos pelas chamas. Após o incêndio na floresta, as primeiras gotas de chuva, ao cair, entram em contato com as cinzas ainda quentes no chão e tentam evaporar. Em vão! Elas só conseguem borbulhar, como se fosse lava quente. O que antes era um paraíso verde e rico em vida, transforma-se em um verdadeiro inferno sobre a terra. E a raça humana, ainda se considera um espécime racional e inteligente. O que faria, então, se não o fosse?
sábado, 18 de abril de 2009
Futebol no tapete da sala
Em uma conversa agora a pouco com meu filho, veio a tona algo de nosso passado. Ao fazer uma arrumação em seu quarto, ele encontrou uma bolinha de couro, já velhinha e desgastada. Imediatamente, veio me mostrar e lembrou que era com aquela bolinha que nós dois brincávamos sobre o tapete da sala de casa, quando ele era pequeno. Ele deveria ter uns três ou quatro anos de idade e, nós dois em cantos opostos da sala, ficávamos jogando, ora com os pés, ora com as mãos. O jogo consistia basicamente, em eu arremessar a pelota e ele, tal qual um goleiro, defender. Com muito esforço, ele se atirava, se esticava todo e conseguia defender a maioria de meus “chutes”. Era uma festa! Hoje, muitos anos depois, ao ver a bola, eu disse: “pôxa, como está velhinha!”No mesmo instante, ele sem pestanejar, me respondeu: “é por que ela tem toda uma história, pai!” Preciso dizer mais alguma coisa?
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Sábia sabiá
Sábia é a sabiá
Que fica no ninho
Até o filhote voar
Atenta mãe sabiá
Sabe ela
Que um belo dia
Alçar vôo
O filho sabiá saberá...
Que fica no ninho
Até o filhote voar
Atenta mãe sabiá
Sabe ela
Que um belo dia
Alçar vôo
O filho sabiá saberá...
quinta-feira, 16 de abril de 2009
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Goma ou grude?
Prova de matemática!
Professora atenta, alunos apavorados.
- Não olhe pro lado, menino!
- Seja qual for a desculpa, não cola!
Professora atenta, alunos apavorados.
- Não olhe pro lado, menino!
- Seja qual for a desculpa, não cola!
domingo, 12 de abril de 2009
Pegadas de coelho
Domingo de Páscoa! Embora com os filhos crescidos e já na faculdade, fiz hoje pegadas de coelho com farinha e carinho pelo chão da cozinha e deixei os ovos de chocolate cuidadosamente escondidos. Por um instante os vi pequenos, pulando de alegria, carinha de sono, a procura de suas cestas com os ovos. Um dia, em uma outra época, tomara que meus netos possam viver também essa singela fantasia. Feliz Páscoa!
sábado, 11 de abril de 2009
Alucinatório
Ambiente escuro, latejante. Palco aceso e em ignição, som nas alturas, estourando os tímpanos. Milhares de mãos erguidas em sinal de uma aguda e precisa sintonia. O pulsar do baixo, a voz esganiçada da guitarra, o ritmo rápido e forte da bateria e as cordas vocais exigidas ao máximo. É só rock’n roll, mas eu gosto!
A Idade Média da minha vida
A minha pré-história fora feliz. Juventude, sorrisos e alegria. Na idade média da minha existência, você surgiu. Época de metal forjado, pontiagudo, letal. Período de trevas, fogueiras, perseguição. Com o tempo, o pouco amor sumiu, dando lugar à indiferença e a frieza das espadas, lanças e palavras. Hoje, novos tempos, muralhas derrubadas, galopar e cabelos ao vento. Só preciso recordar como se pronuncia e se sente felicidade.
A lágrima e a rosa vermelha
Sempre me disseram que as rosas vermelhas simbolizavam o amor e a paixão. Eu jamais acreditei nisso. Hoje, a minha verdade se confirmou. Você não está mais aqui e as rosas estão no chão, pisoteadas e regadas pelas minhas lágrimas.
A recessão e o chocolate
Crise mundial, recessão econômica, bolsos vazios. Essas são palavras que andam martelando nossos ouvidos nos últimos tempos. Será que isso, além de outras mazelas, deixará a Páscoa desse ano menos doce? O orçamento do Coelho da Páscoa também será afetado? Já que estamos atravessando tempos bicudos e temos pela frente um futuro incerto e ainda encoberto pelo nevoeiro da economia, que tal adoçarmos isso tudo com chocolate? Um ovo de chocolate! Não seria perfeito? Afinal, além do bolso não estar completamente vazio, o ovo significa vida, continuação, recomeço. E o chocolate? Bem, ele tem o dom de adoçar nossas horas e alegrar nossas vidas, enquanto se derrete na boca. Feliz Páscoa a todos!
sexta-feira, 10 de abril de 2009
quinta-feira, 9 de abril de 2009
segunda-feira, 6 de abril de 2009
“?” !
Personagem 1: "?"...
Personagem 2: "?" ?
Personagem 1: "?" !
Personagem 2: Mas, por que não "!" ?
Personagem 1: Oras, e por que não pode ser "?" ?
Personagem 2: Ficam muitas dúvidas no ar...
Personagem 1: É que a minha vida é um constante "?" !
Personagem 1: E, além do mais, um "?" é melhor que "..." ...
Personagem 2: ...
Cada uma...
Personagem 2: "?" ?
Personagem 1: "?" !
Personagem 2: Mas, por que não "!" ?
Personagem 1: Oras, e por que não pode ser "?" ?
Personagem 2: Ficam muitas dúvidas no ar...
Personagem 1: É que a minha vida é um constante "?" !
Personagem 1: E, além do mais, um "?" é melhor que "..." ...
Personagem 2: ...
Cada uma...
Paraíso
Enquanto a lua brilha, as estrelas cintilam e a brisa nos acaricia, o coração dispara e o meu eu se eleva, te vendo caminhar nua pelo quarto, ante meus olhos esbugalhados... A beleza definitivamente não está lá fora...
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Primeiro de abril
Primeiro de abril... Acordei atrasado! Trânsito caótico, carros quase me esbarrando a cada esquina, motoristas desatentos e ao celular. Estudantes conversando fora dos muros da escola, mesmo depois do início das aulas. Aquela tintura de cabelo caju, reluzindo contra o sol... Deve ser tudo mentira...
sábado, 14 de março de 2009
Espremedura
Escolheu? Ficou bom? Não trocamos! E nem devolvemos o dinheiro! Dirija-se ao caixa, logo atrás daquela senhora, a septuagésima primeira da fila. Passe o seu cartão! Crédito ou débito? Digitou a senha? Entre logo após aquele senhor, na fila dos pacotes. Tenha uma boa tarde...se puder! Estamos vivendo um outro tipo de escravidão. É a escravidão do consumo, dos gastos desnecessários e da compulsão pelas compras. Como é possível não termos as roupas da moda e não dirigirmos um carro do ano? Onde já se viu os nossos filhos irem para a escola sem um tênis daquela marca? E o boné? Instrumento indispensável ao aprendizado! É inadmissível não passarmos as tardes de domingo em um shopping e muito menos ainda não termos assistido àquele filme que ganhou o Oscar! Não estar na fila para o hambúrguer, é imperdoável. Nós estamos sendo verdadeiros sonâmbulos existenciais que cometem muitas vezes o pecado de ser financeiramente incompetentes para estar em constante sintonia com tudo isso. Estamos virando suco na prensa do consumo. E, pior, nem é um suco muito natural...
segunda-feira, 9 de março de 2009
No jardim
Hoje cedo, liguei para a minha mãe, como eu faço quase sempre. Lá estava ela, no jardim. Feliz e animada do alto dos seus oitenta e quatro anos, me disse que havia levantado cedo, tomado café e ido limpar os canteiros, replantar algumas mudas de flores e regar as suas plantas. Fiquei muito feliz ao sentir em sua voz, a disposição e a vitalidade. Após passar uma vida de lutas e dificuldades, auxiliando meu pai a nos criar, educar e dar o melhor que ela pode, nada mais justo poder se dedicar às linhas, às lãs, ao jardim e às flores. É a recompensa de uma mulher guerreira que sempre lutou bravamente por seus filhos e sua família. Felizes daquelas flores, que podem sentir hoje, o carinho daquelas mãos trabalhadoras e bondosas. Tenho certeza que aquele, é o jardim mais bonito da vizinhança! Existe carinho e amor, além de terra, naqueles canteiros.
Sob o luar
Os raios do luar descem embalados pela fria brisa da noite. Entram pela sacada e clareiam o chão, o quarto, a cama. Lá embaixo, parte da cidade dorme. Inspirado pela lua, invado o teu universo, lentamente. Pela manhã, a chuva lava as ruas, as janelas e as almas. Abro os olhos e vejo que ainda tenho a tua presença. Não penso em sair daqui tão cedo. Não me deixe acordar. A realidade poderia não ser assim, tão perfeita.
sexta-feira, 6 de março de 2009
Bom dia!?!
Todas as manhãs, ao chegar ao escritório e cumprimentar o pessoal, eu travava o seguinte diálogo com um colega:
Bom dia!
Bom dia, por que? O que você sabe de bom, que eu ainda não sei?
Ou ainda:
Olá! Tudo bem?
Tudo bem? Só se for para você, que ganha bem...
E assim acontecia todos os dias. O meu cumprimento e a resposta dele. Era o mesmo diálogo travado a cada manhã. Eu ficava pensando: seriam estas, as respostas de uma pessoa extremamente pessimista? Ou ele realmente passava por dificuldades intransponíveis e, por isso, não conseguia começar bem, pelo menos um dia? Diariamente, eu ficava matutando sobre isso e me fazia essas indagações. O tempo passou. Hoje, pela manhã, após enfrentar um trânsito quase caótico para ir ao trabalho e passar pelo caixa eletrônico do banco para ver o meu saldo, me bateu uma dúvida. Afinal de contas, bom dia por que mesmo?
Bom dia!
Bom dia, por que? O que você sabe de bom, que eu ainda não sei?
Ou ainda:
Olá! Tudo bem?
Tudo bem? Só se for para você, que ganha bem...
E assim acontecia todos os dias. O meu cumprimento e a resposta dele. Era o mesmo diálogo travado a cada manhã. Eu ficava pensando: seriam estas, as respostas de uma pessoa extremamente pessimista? Ou ele realmente passava por dificuldades intransponíveis e, por isso, não conseguia começar bem, pelo menos um dia? Diariamente, eu ficava matutando sobre isso e me fazia essas indagações. O tempo passou. Hoje, pela manhã, após enfrentar um trânsito quase caótico para ir ao trabalho e passar pelo caixa eletrônico do banco para ver o meu saldo, me bateu uma dúvida. Afinal de contas, bom dia por que mesmo?
terça-feira, 3 de março de 2009
segunda-feira, 2 de março de 2009
De menor importância...
Ele sempre se incumbiu de coisas pequenas. Na infância, não brincava no chão para não sujar os brinquedos e a roupa. Na escola, era um dos alunos mais quietos da sala, para não ser notado. Na juventude, a timidez o impedia de se aproximar das garotas. Durante a vida adulta, se enfurnou na mesa do fundo em uma repartição pública, onde não era necessário fazer esforço algum para receber o salário no final do mês. Aos setenta anos, morreu. Ao seu enterro, quase ninguém foi. Afinal, era um dia chuvoso e ele sempre se ocupara de espetáculos de menor importância, mesmo quando era o personagem principal...
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Mesmo assim...
Se você não sabe cantar, fale a letra da canção. Mas, se deixe embalar. Se não souber dançar, arraste os pés ao som da música. Ser levado pelo movimento dos passos, pode te deixar mais leve. Se não souber recitar, leia as frases que compõem a poesia. Isso pode aliviar a sua alma. Se não tiver fôlego ou forças para correr, caminhe. Mas, faça o possível para se manter em movimento. Se não estiver preparado para tirar a nota máxima naquela prova, faça-a assim mesmo. Receba a nota que expresse o seu merecimento ou conhecimento e siga em frente. Se não souber como levar a vida, viva assim mesmo. Insista! Alguém depende disso ou, por alguma razão, espera que você exista...
sábado, 14 de fevereiro de 2009
A Era de Aquário
Segundo astrônomos, astrólogos, cientistas e PhDs de várias partes do mundo em seus estudos, inicia-se hoje, a Era de Aquário. Segundo eles, ao amanhecer do dia 14 de fevereiro de 2009, o dia dedicado a Saint Valentine, o santo padroeiro do amor, a Lua em Libra entra na sétima casa, a casa dos relacionamentos. Júpiter e Marte se alinham em Aquário na décima segunda casa da transformação espiritual. O Universo traz este alinhamento perfeito para dar sustentação a uma manifestação coletiva de amor, paz e ao início da Era de Aquário. Há quarenta anos a letra intuitiva de uma canção chamada Aquarius, trouxe o início de uma nova era para a consciência coletiva.
Ela dizia:
When the Moon is in the seventh house
and Jupiter aligns with Mars
Then peace will guide the planets
and love will steer the stars
This is the dawning of the age of Aquarius
(Quando a Lua estiver na sétima casa
e Jupiter estiver alinhado com Marte
então a paz conduzirá os planetas
e o amor orientará as estrelas
este é o início da Era de Aquário)
Segundo os estudiosos, inicia-se hoje uma era de fraternidade universal, onde será possível solucionar os problemas sociais de maneira igual para todos e com grandiosas oportunidades para o desenvolvimento intelectual e espiritual. Explicam eles que Aquario é um signo aéreo, científico, intelectual e o seu planeta regente, Urano, é associado com a intuição (conhecimento acima da razão) e com as percepções diretas do coração. No nível mundano, este planeta rege a eletricidade e a tecnologia. Eu não sou um estudioso do assunto, mas espero que estas pessoas estejam certas e que a partir de hoje, inicie-se uma nova era. Uma era onde o entendimento e a paz entre os diversos povos, etnias, credos religiosos, ideologias políticas e raças possa ser real e verdadeiro. Tomara seja hoje, o início de um novo tempo para a humanidade e para esse mundo onde vivemos. Que assim seja!
* Pesquisa no Google
Ela dizia:
When the Moon is in the seventh house
and Jupiter aligns with Mars
Then peace will guide the planets
and love will steer the stars
This is the dawning of the age of Aquarius
(Quando a Lua estiver na sétima casa
e Jupiter estiver alinhado com Marte
então a paz conduzirá os planetas
e o amor orientará as estrelas
este é o início da Era de Aquário)
Segundo os estudiosos, inicia-se hoje uma era de fraternidade universal, onde será possível solucionar os problemas sociais de maneira igual para todos e com grandiosas oportunidades para o desenvolvimento intelectual e espiritual. Explicam eles que Aquario é um signo aéreo, científico, intelectual e o seu planeta regente, Urano, é associado com a intuição (conhecimento acima da razão) e com as percepções diretas do coração. No nível mundano, este planeta rege a eletricidade e a tecnologia. Eu não sou um estudioso do assunto, mas espero que estas pessoas estejam certas e que a partir de hoje, inicie-se uma nova era. Uma era onde o entendimento e a paz entre os diversos povos, etnias, credos religiosos, ideologias políticas e raças possa ser real e verdadeiro. Tomara seja hoje, o início de um novo tempo para a humanidade e para esse mundo onde vivemos. Que assim seja!
* Pesquisa no Google
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Ô, vidão!
É algo inerente do ser humano se queixar de quase tudo. Se chove, reclamamos da molhadeira, da umidade, dos calçados encharcados e do guarda chuva pingando água pelo chão da sala. Se faz calor, reclamamos do sol forte, da falta de sombra para descansar, da transpiração e do desodorante vencido. Se no trabalho se apresenta algum problema mais sério e que não consideramos responsabilidade nossa, nós esbravejamos antes de resolvê-lo. Também é assim quando o dinheiro está curto, quando o nosso time perde ou quando a gripe nos ataca um pouco mais forte. Eu também sou assim. Quase todos agem assim. Mas, será que se nós fizéssemos um esforço para gostar da nossa vida como ela é, para enfrentar as situações tais como elas se apresentam, não seria melhor? Não viveríamos mais felizes? O nosso fardo não seria mais leve? Muitas vezes, as crianças nos dão um belo exemplo de aceitação, alegria e confiança na vida que valeria a pena ser seguido ou, no mínimo, observado. É como diz o meu sobrinho Gustavo, de cinco anos de idade, ao se ver sentado no tapete da sala, rodeado de brinquedos:
“Ô vidão!”
E a nossa vida, na maior parte do tempo, não é um vidão?
“Ô vidão!”
E a nossa vida, na maior parte do tempo, não é um vidão?
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Quase perfeito...
Aquela era uma cidade onde tudo acontecia de maneira ordenada e irretocável. Mesmo nos dias de sol, a população levava consigo um guarda chuvas. Afinal, a qualquer instante poderia chover. E, o que aconteceria se as roupas molhassem? Quando as babás levavam as crianças para brincar no parque, carregavam sempre uma outra roupa branquinha para trocar no pimpolho, após as brincadeiras. O que as pessoas falariam ao ver uma criança com as roupas sujas? Nas empresas, os funcionários estavam sempre dispostos a mudar de atitude ou de comportamento para combinar com o humor mostrado pelo gerente, naquele dia. O que o chefe poderia pensar de cada um, se as opiniões divergissem ou se aquela risada fosse considerada inadequada? Nas ruas, as pessoas evitavam falar ou rir muito alto para não perturbar o sossego de quem mais andasse por ali. Durante o outono, mal as folhas caíam no chão e imediatamente eram recolhidas pelos garis, atentos e rápidos. Tudo era correto e funcionava de uma forma automaticamente perfeita. Mas, estranhamente, a população era triste. A falta de sorrisos nos rostos era visível. Aquela perfeição era insuportavelmente chata! Existia uma ânsia aprisionada de tomar um banho de chuva. Nos íntimos, fervilhava uma vontade de jogar bola na praça, até ficar exausto. Que vontade de jogar um papel de bala no chão...!
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Janelas
A composição é comprida, mas mesmo assim, nada! No passar das janelas da vida, tenho tentado te encontrar. Mas, ou ela passa muito rápido ou é você que anda se escondendo. Corro para mudar de janela. Algumas, encontro ainda escuras pelo amanhecer da existência. Outras, já anoitecendo, pelo tempo passado e perdido. Mesmo nas mais claras e iluminadas, como a de ontem ou a de hoje, você também não está. Ou são as minhas lentes, já fracas, que não captam a tua imagem ou já é a sombra do desespero que a tudo encobre. Continuarei tentando nas próximas janelas, a de amanhã e a de depois, encontrar algum vestígio teu. Ou, ao menos, o teu perfume ainda no ar. Não se esconda mais! O comboio da vida é longo, mas um dia as janelas acabam e nos batemos de frente com o seu final. Se tivermos sorte, estaremos em alguma estação. Caso contrário, terminaremos perdidos em algum lugar, entre os trilhos simetricamente longos e frios.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Motivos
Ficamos procurando consolo, as respostas e os motivos dos nossos atos em cada nota musical. A cada som que chega aos ouvidos, procuro um alento, uma desculpa, um perdão. Mas, ao contrário do que diz a música, as pessoas são outras, são duras, são diferentes. Nas mentes, não há lugar para preocupações, dúvidas, interrogação. A solução é fechar os olhos. A saída é tentar chamar a atenção. O consolo é ser notado. O destino já traçado, desenhado nas linhas da mão. Talvez na escuridão da falta do olhar possa estar o alento. Na imensidão da falta de amar está o castigo. No silêncio da noite se encontra o desespero. Sobre cada um o pecado, bem acima de todos, o perdão. Não deixe a música parar. Que antes pare o coração.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Na memória...
O menino nasceu e passou a infância às margens da grande lagoa. Junto com a mãe e os irmãos passava as tardes na praia, nos quentes dias de verão. Iam municiados de um tarro de alumínio cheio de limonada gelada e guloseimas como pastéis, cucas e outros salgados e doces. Era uma festa sair da água com os dedos enrugados e encontrar o olhar carinhoso da mãe, uma toalha quente e aquele lanche delicioso. Era uma festa também para os amigos e primos que se encontrassem por perto. Após o lanche revigorante, novos mergulhos e jogos de futebol na areia. No final da tarde chegava o pai para dar umas braçadas com os filhos e voltar com todos para casa. Também passava as suas horas no meio da plantação de arroz da família. As águas, sempre elas, que banhavam o arroz irrigado durante todo o período de plantio também eram motivo de festa. Espantar os pássaros que se aproximavam dos pés de arroz verdinho e pular entre as marachas na lavoura lhe traziam alegria. Os campos de futebol cobertos de cascas de arroz construídos no quintal de casa com as traves feitas de bambu foram testemunhas de muitos “rachas” de bola. As lutas de espadas feitas com sarrafos e ripas do galpão de casa sempre acabavam em paz. Os passeios escondidos no cavalo do vizinho, dono do engenho de arroz, eram uma aventura e um segredo guardado a sete chaves. Os dias chuvosos em que saía protegido pela capa de chuva com capuz, feita de uma grossa lã azul marinho se transformavam também em uma jornada de aventura. Era como se estivesse atravessando geleiras ou andando em uma cidade fantasma sob um intenso temporal. A imaginação corria solta. Os seus vários cachorros na infância, entre eles tendo destaque o Lobo sempre foram companheiros de brincadeiras. O leite tirado direto das vacas e bebido com vontade e as uvas colhidas direto no parreiral de casa sempre foram apreciados. Os banhos de chuva nas ruas de terra e as brincadeiras de Tarzan nas árvores, eram sinônimos de tardes cheias de emoção. Eu já era feliz mas ainda não sabia.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
No coração...
A época era outra. Era no tempo em que os nobres andavam de carruagem e as roupas exibiam detalhes em renda e veludo. As ruas eram pavimentadas em pedra e iluminadas por lampiões. Era um tempo em que os rapazes cavalgavam e se exibiam em jogos de habilidade e força e as moças casadoiras olhavam com interesse para esses jovens nas festas e bailes da sociedade, na esperança de um bom casamento.
Era costume a moça deixar cair ou atirar o seu lenço em direção ao pretendido, a fim de chamar sua atenção e dar início a um namoro. Os encontros eram marcados por reverências de ambas as partes. As moças abaixavam suavemente o corpo, deixando encostar no chão os longos e belos vestidos rodados. Já os rapazes, inclinavam a cabeça e tiravam o chapéu, em um sinal de respeito e admiração pela beleza das jovens donzelas.
Um belo dia, o país entrou em guerra. Além do exército normal, foram convocados todos os jovens em idade de serviço militar para defender as fronteiras do país nas trincheiras encravadas nas pradarias do norte. Exército enfileirado e soldados equipados, começa o desfile das tropas em direção ao porto para o embarque no navio que os conduziria à frente de batalha. Uniformes impecáveis, mochila e bolsas com pólvora e balas de chumbo transformavam aqueles jovens em soldados prontos para a guerra. Ao ombro, levavam os longos e reluzentes mosquetões guarnecidos por uma longa baioneta. Estavam prontos para a batalha. A multidão, enfileirada ao longo das ruas que conduzem ao porto, promove um festivo ato de apoio, saudando os bravos soldados que irão defendê-los, fazendo frente aos inimigos.
Ao passar por sua amada, que entre lágrimas e sorrisos o aguarda, o jovem soldado a fita nos olhos, na esperança de ouvir alguma coisa que lhe dê forças para a jornada. Ela, em um gesto rápido, lhe atira o lenço perfumado e grita que o ama. Ele, entre um misto de atônito e feliz, grita a plenos pulmões que assim como o lenço, ela estará sempre junto de seu coração.
O navio, movido por longas e altas velas, se afasta e só deixa os soldados alguns dias depois em um ponto onde o barulho dos canhões e dos mosquetões já pode ser ouvido. Colunas de fumaça se erguem e a correria das tropas é enorme. Nas enfermarias improvisadas em barracas, se empilham os feridos. Os mortos são enterrados ainda no cenário das batalhas.
Os dias e as semanas se passam e os entreveros se tornam cada vez mais sangrentos. Ao tentar ganhar uma posição mais próxima da linha inimiga, nosso personagem é atingido por uma bala na altura do peito.
A dor é implacável e o sangue jorra sem cessar. Socorrido por seus companheiros, é arrastado de volta para a trincheira. Em meio ao delírio que já se faz presente, ele chama pela amada. Pronuncia seu nome, a princípio em voz baixa, depois aos gritos na esperança de ser ouvido por ela. Ansiosos por conter a hemorragia e sem um médico por perto, a única coisa que encontram no bolso do ferido é o lenço oferecido pela bela donzela, ainda levemente perfumado. Sem outra opção, se utilizam dele para tentar estancar o sangue que brota da ferida aberta no peito. Não adiantou. Alguns minutos depois, nosso jovem soldado morre. Mas como prometera, manteve junto do coração o lenço perfumado e o nome da amada nos lábios.
A promessa fora cumprida.
Era costume a moça deixar cair ou atirar o seu lenço em direção ao pretendido, a fim de chamar sua atenção e dar início a um namoro. Os encontros eram marcados por reverências de ambas as partes. As moças abaixavam suavemente o corpo, deixando encostar no chão os longos e belos vestidos rodados. Já os rapazes, inclinavam a cabeça e tiravam o chapéu, em um sinal de respeito e admiração pela beleza das jovens donzelas.
Um belo dia, o país entrou em guerra. Além do exército normal, foram convocados todos os jovens em idade de serviço militar para defender as fronteiras do país nas trincheiras encravadas nas pradarias do norte. Exército enfileirado e soldados equipados, começa o desfile das tropas em direção ao porto para o embarque no navio que os conduziria à frente de batalha. Uniformes impecáveis, mochila e bolsas com pólvora e balas de chumbo transformavam aqueles jovens em soldados prontos para a guerra. Ao ombro, levavam os longos e reluzentes mosquetões guarnecidos por uma longa baioneta. Estavam prontos para a batalha. A multidão, enfileirada ao longo das ruas que conduzem ao porto, promove um festivo ato de apoio, saudando os bravos soldados que irão defendê-los, fazendo frente aos inimigos.
Ao passar por sua amada, que entre lágrimas e sorrisos o aguarda, o jovem soldado a fita nos olhos, na esperança de ouvir alguma coisa que lhe dê forças para a jornada. Ela, em um gesto rápido, lhe atira o lenço perfumado e grita que o ama. Ele, entre um misto de atônito e feliz, grita a plenos pulmões que assim como o lenço, ela estará sempre junto de seu coração.
O navio, movido por longas e altas velas, se afasta e só deixa os soldados alguns dias depois em um ponto onde o barulho dos canhões e dos mosquetões já pode ser ouvido. Colunas de fumaça se erguem e a correria das tropas é enorme. Nas enfermarias improvisadas em barracas, se empilham os feridos. Os mortos são enterrados ainda no cenário das batalhas.
Os dias e as semanas se passam e os entreveros se tornam cada vez mais sangrentos. Ao tentar ganhar uma posição mais próxima da linha inimiga, nosso personagem é atingido por uma bala na altura do peito.
A dor é implacável e o sangue jorra sem cessar. Socorrido por seus companheiros, é arrastado de volta para a trincheira. Em meio ao delírio que já se faz presente, ele chama pela amada. Pronuncia seu nome, a princípio em voz baixa, depois aos gritos na esperança de ser ouvido por ela. Ansiosos por conter a hemorragia e sem um médico por perto, a única coisa que encontram no bolso do ferido é o lenço oferecido pela bela donzela, ainda levemente perfumado. Sem outra opção, se utilizam dele para tentar estancar o sangue que brota da ferida aberta no peito. Não adiantou. Alguns minutos depois, nosso jovem soldado morre. Mas como prometera, manteve junto do coração o lenço perfumado e o nome da amada nos lábios.
A promessa fora cumprida.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
O escritor e as duas mulheres
Em meio a ainda tênue luz do amanhecer que entrava pela janela, ele via sua própria imagem refletida no espelho. Hoje, parecia que cada fio de cabelo branco lembrava uma história vivida, assim como cada ruga profundamente esculpida em seu rosto refletia uma emoção sentida. Aquela tinha sido uma noite difícil. O sono estivera leve, os pensamentos voaram distantes e, no peito, um estranho aperto.
Dormira, como sempre fez, ao lado daquela mulher que o acompanhara ao longo da vida e que lhe dera os dois filhos. Estes filhos, já com suas vidas aprumadas e com suas próprias histórias já sendo traçadas longe dos olhos paternos. Foi até a janela de onde estava acostumado a observar as ondas do mar que, insistentemente a cada novo dia, vinham lhe cumprimentar.
Por vezes ele nem queria, mas ali estavam elas, se mostrando, se impondo sobre a areia branca, fazendo o seu ruído característico. Será que, pelo menos hoje, elas não poderiam silenciar? Ele precisava colocar os pensamentos em ordem, as idéias em linha, arrumadas, enfileiradas, para que depois as pudesse repensar, uma a uma.
Estranho, aquela manhã não parecia ser igual a tantas e tantas outras já vivenciadas, aproveitadas, amaldiçoadas. Os olhos vermelhos, conseqüência da noite mal dormida eram uma evidência de que algo não ía bem.
Aproximou-se da velha máquina de escrever sobre a escrivaninha repleta de folhas em branco, algumas parcialmente escritas e ainda outras amassadas, rasgadas e rabiscadas.
Sim, fora dalí, em meio ao constante amontoado de papéis em sua mais ordenada desordem onde haviam sido gestados e expulsos para o mundo todos os seus livros.
Seus livros ao longo de infindáveis anos foram como arautos, mensageiros, que anunciavam em alto e bom tom de tinta preta sobre as páginas brancas, as suas ideias, suas crenças, suas falhas, suas descrenças e até mesmo suas esperanças. Em épocas de guerra, seus livros haviam servido tanto de lenitivo para os soldados nas trincheiras, como fábrica de idéias e argumentos aos líderes do país, únicos a quem as batalhas travadas e o sangue derramado de seus compatriotas serviam para alguma coisa, mesmo que apenas para mostrar poder e força.
Em outras épocas, seus romances embalaram os sonhos de amor e as vidas de toda uma geração de enamorados e apaixonados daquelas terras.
Em períodos de depressão, de crises econômicas, o povo arrancava forças para a penosa sobrevivência nas palavras retiradas das páginas de suas comédias e histórias jocosas.
Sem falsa modéstia, os seus contos, dramas, comédias e artigos políticos impregnados naqueles livros haviam ajudado a construir a mente daquele povo e o enchido de força pessoal, moral e cívica. Por que então, ainda assim havia no ar aquela estranha sensação que a vida não havia valido totalmente a pena ter sido vivida?
O motivo não estava lá fora, nem no mundo próximo, nem no além mar, mas sim dentro de seus próprios domínios: sua casa e principalmente sua mente.
Havia algo que ele e apenas ele, sabia, conhecia e não dividira com ninguém até a data de hoje. O seu coração estivera dividido entre duas mulheres a vida toda, a miserável vida inteira! Desde que se conhecia por gente, as duas estiveram alí, na vizinhança, na mesma rua. Entraram na escola juntos, os três! Aprenderam as primeiras letras na mesma sala de aula. Nos finais de semana, os dias de brincadeiras na rua de terra com as outras crianças terminavam ao lado delas, sentados à sombra de uma árvore, ou na beira do rio contando histórias e rindo muito, de tudo. Os primeiros beijos dos três foram compartilhados, porém sem que uma soubesse da experiência vivida por ele com a outra. Tudo acontecia em um processo natural, sem maldade ou malícia, em um contínuo ato de amadurecimento. Assim, a infância passou, veio a adolescência e a juventude. Aquele trio ria, convivia, passeava e passava a vida partilhando tudo como verdadeiros cumplices. Compartilhavam experiências, carinhos, carícias, ora formando um casal, ora outro.
Com o tempo, ele percebia que as duas estavam crescendo, tomavam formas diferentes, criavam curvas insinuantes, formas de mulher! Como eram bonitas! Aliás, estavam ficando lindas!
A medida que seus olhos sentiam a necessidade de admirar a ambas, seu coração foi se apaixonando, e o pior: pelas duas! Ingrato coração! Indeciso coração!
A dúvida e a paixão estavam presentes e juntas! Ele jamais havia conseguido se decidir, se definir, escolher entre a bela ruiva e a esplendorosa loira que dividiam com ele as salas de aula, os concertos de piano, os jantares, as festas e os bailes. Em uma valsa ele percorria o salão com uma nos braços e na música seguinte era com a outra que ele flutuava.
Os anos foram passando, a vida andava a passos largos e, um dia, ele não sabe porque, decidira pedir a mão da bela ruiva em casamento.
No dia, se sentira resoluto, com toda a certeza deste mundo. Malvado mundo! A medida que o tempo passava, vieram os filhos, um após o outro.
A vida doméstica era boa, mas sempre que a amiga loira passava pela rua, o seu olhar insistia em se desviar para conferir aqueles passos, para ver aqueles cabelos, aqueles quadris e observar a sua bela silhueta. Quando encontrava a amiga nas ruas, no armazem ou na praça, as conversas eram muito animadas. Riam de tudo, os olhares insistiam em se encontrar e as bocas não deixavam de se encarar de maneira quase explícita.
Como a vila era pequena, todas as portas, janelas, ruas e vielas tinham olhos, ouvidos e bocas. Muitas bocas! Então, ele se recolhia para junto da máquina de escrever e dava vazão aos sentimentos que já não podia externar pessoalmente àquela criatura tão querida, tão amada. Quantos romances saíram dali, em situações como esta. Eram vários. Eram muitos. E assim o tempo passava, as marés subiam, baixavam, os dias eram substituidos pelas noites e a vida seguia o seu ritmo, um penoso ritmo.
A ideia de, ao mesmo tempo dividir a sua vida em duas, mesmo que fosse só no seu íntimo, o angustiava, o perturbava. Abriu os olhos e se viu novamente na frente do espelho. Agora, as lágrimas já lhe molhavam a face e as pernas insistiam em se dobrar até o deixar de joelhos, como quem pede perdão pelas faltas, pelos pecados e pelos sacrilégios cometidos durante a existência. Num instante, seus olhos parecem querer saltar das órbitas e um grito sufocado acompanha a forte e aguda dor que irrompe no peito. Era como se o seu indeciso coração finalmente tivesse resolvido tomar alguma decisão; a decisão de pular para fora do peito. Mas, precisava doer tanto? Era quase insuportável! A visão começa a ficar turva e o raciocínio começa a ficar lerdo, fraco, impreciso. Ele sente que as forças o estão abandonando, deixando-o indefeso diante da própria sorte e da própria morte. Sim, ele estava sentindo a presença daquela que só ouvira falar ou só citara em seus textos: a morte!
Tentando chamar por alguém, a voz lhe falta, falha, some, o abandona. Agora, já se vê deitado no chão totalmente entregue e com o olhar fixo no teto. Em instantes, a visão antes turva, se apaga por completo e ele só sente a escuridão. Estranha e fria escuridão que agora o abraça como se fosse uma mortalha. Mas, por algum motivo a dor desaparecera, e isto era bom, muito bom. Aos poucos, sua visão clareia novamente e ele consegue ver aquele corpo de homem, deitado, em repouso no chão. Mas como? Era ele que jazia no chão da sala então já invadida pelos raios de sol da manhã. No mesmo instante, a verdade se descortinou: tinha sido apanhado pela morte, estava indo para uma outra vida, estava a espera de outra sorte.
Pouco a pouco, viu que as pessoas em pânico corriam e se aproximaram de seu corpo, lavando-o com copiosas lágrimas. Ele, porém, estranhamente se sentia bem, aliás muito bem. Passada uma hora, a sala já estava repleta de gente. Amigos, conhecidos, e ali, juntas, lado a lado, os dois amores de sua vida. Para sua alegria, neste instante as duas choravam juntas, abraçadas. Era uma estranha alegria. Começava a perceber que havia sido necessária a sua morte para unir em vida, as duas criaturas amadas. Finalmente, após uma vida inteira ele estava alí, junto das duas mulheres de sua existência terrena em perfeita harmonia, em completa união.
O estranho é que agora, e apenas agora, ele podia estar ao lado de quem quisesse, na hora que bem entendesse. Podia admirar aquelas mulheres que foram a sua vida e que fizeram a sua vida ter valido verdadeiramente a pena ter sido vivida. Ele estava aliviado, se sentia leve. Sua alma estava em paz.
Após quase não terem mais lágrimas para derramar, as duas amadas criaturas se aproximaram da velha máquina de escrever, na esperança de achar ali algo que mantivesse por mais um tempo a sensação de tê-lo por perto. Era como se estivessem a procura de um epitáfio, de uma herança, de um testamento. Eis que, entre uma mistura de sorrisos e choro, elas encontraram o que procuravam. Ali, incrustrada na antiga máquina, estava uma folha datilografada pela metade. Ao mesmo tempo em que um calafrio descia por suas espinhas, dois sorrisos se abriram ao lerem as curtas linhas construidas em tipos pretos e firmemente marcados no papel.
Lá, dizia:
O escritor e as duas mulheres
O velho escritor levara uma vida dividida
Amara muito
Muito em intensidade
Muito em quantidade
Em seu coração, duas metades
Em sua vida, dois caminhos
Em seu pensamento, duas mulheres
Convivia com uma
Vivia para a outra
Casara com uma
Amara também a outra
Nas manhãs da mente, lia o jornal com uma
Nas tardes da vida, declarava-se para a outra
No resto do dia, escrevia inspirado nas musas
Já tarde da noite, quando a luz se apagava
Sua imaginação brilhava
Sua saudade acendia
Sua alma ascendia...
Com uma, tinha filhos
Com a outra, tinha sonhos
Que a outra se tornasse a uma
Que suas almas se tornassem única
Que suas histórias se tornassem una
Que suas almas voassem livres
No frescor da brisa
Sobre as águas calmas
No brilhar da lua
Pela madrugada...
Um dia
O livro fechou
A cortina desceu
A morte chegou
Enquanto outros choravam
Seu espírito feliz, gargalhou
Estava livre para ir
Estava seguro para decidir
Qual o caminho a seguir
Ao lado de quem, descansar...
Era a indicação clara, precisa e escrita que aquela união, que não era apenas carnal, que aquele amor a três, permaneceria vivo através dos tempos, neste e no outro mundo. Quem conviveu, viu! Quem viver, verá! Quem morrer, comprovará!
Dormira, como sempre fez, ao lado daquela mulher que o acompanhara ao longo da vida e que lhe dera os dois filhos. Estes filhos, já com suas vidas aprumadas e com suas próprias histórias já sendo traçadas longe dos olhos paternos. Foi até a janela de onde estava acostumado a observar as ondas do mar que, insistentemente a cada novo dia, vinham lhe cumprimentar.
Por vezes ele nem queria, mas ali estavam elas, se mostrando, se impondo sobre a areia branca, fazendo o seu ruído característico. Será que, pelo menos hoje, elas não poderiam silenciar? Ele precisava colocar os pensamentos em ordem, as idéias em linha, arrumadas, enfileiradas, para que depois as pudesse repensar, uma a uma.
Estranho, aquela manhã não parecia ser igual a tantas e tantas outras já vivenciadas, aproveitadas, amaldiçoadas. Os olhos vermelhos, conseqüência da noite mal dormida eram uma evidência de que algo não ía bem.
Aproximou-se da velha máquina de escrever sobre a escrivaninha repleta de folhas em branco, algumas parcialmente escritas e ainda outras amassadas, rasgadas e rabiscadas.
Sim, fora dalí, em meio ao constante amontoado de papéis em sua mais ordenada desordem onde haviam sido gestados e expulsos para o mundo todos os seus livros.
Seus livros ao longo de infindáveis anos foram como arautos, mensageiros, que anunciavam em alto e bom tom de tinta preta sobre as páginas brancas, as suas ideias, suas crenças, suas falhas, suas descrenças e até mesmo suas esperanças. Em épocas de guerra, seus livros haviam servido tanto de lenitivo para os soldados nas trincheiras, como fábrica de idéias e argumentos aos líderes do país, únicos a quem as batalhas travadas e o sangue derramado de seus compatriotas serviam para alguma coisa, mesmo que apenas para mostrar poder e força.
Em outras épocas, seus romances embalaram os sonhos de amor e as vidas de toda uma geração de enamorados e apaixonados daquelas terras.
Em períodos de depressão, de crises econômicas, o povo arrancava forças para a penosa sobrevivência nas palavras retiradas das páginas de suas comédias e histórias jocosas.
Sem falsa modéstia, os seus contos, dramas, comédias e artigos políticos impregnados naqueles livros haviam ajudado a construir a mente daquele povo e o enchido de força pessoal, moral e cívica. Por que então, ainda assim havia no ar aquela estranha sensação que a vida não havia valido totalmente a pena ter sido vivida?
O motivo não estava lá fora, nem no mundo próximo, nem no além mar, mas sim dentro de seus próprios domínios: sua casa e principalmente sua mente.
Havia algo que ele e apenas ele, sabia, conhecia e não dividira com ninguém até a data de hoje. O seu coração estivera dividido entre duas mulheres a vida toda, a miserável vida inteira! Desde que se conhecia por gente, as duas estiveram alí, na vizinhança, na mesma rua. Entraram na escola juntos, os três! Aprenderam as primeiras letras na mesma sala de aula. Nos finais de semana, os dias de brincadeiras na rua de terra com as outras crianças terminavam ao lado delas, sentados à sombra de uma árvore, ou na beira do rio contando histórias e rindo muito, de tudo. Os primeiros beijos dos três foram compartilhados, porém sem que uma soubesse da experiência vivida por ele com a outra. Tudo acontecia em um processo natural, sem maldade ou malícia, em um contínuo ato de amadurecimento. Assim, a infância passou, veio a adolescência e a juventude. Aquele trio ria, convivia, passeava e passava a vida partilhando tudo como verdadeiros cumplices. Compartilhavam experiências, carinhos, carícias, ora formando um casal, ora outro.
Com o tempo, ele percebia que as duas estavam crescendo, tomavam formas diferentes, criavam curvas insinuantes, formas de mulher! Como eram bonitas! Aliás, estavam ficando lindas!
A medida que seus olhos sentiam a necessidade de admirar a ambas, seu coração foi se apaixonando, e o pior: pelas duas! Ingrato coração! Indeciso coração!
A dúvida e a paixão estavam presentes e juntas! Ele jamais havia conseguido se decidir, se definir, escolher entre a bela ruiva e a esplendorosa loira que dividiam com ele as salas de aula, os concertos de piano, os jantares, as festas e os bailes. Em uma valsa ele percorria o salão com uma nos braços e na música seguinte era com a outra que ele flutuava.
Os anos foram passando, a vida andava a passos largos e, um dia, ele não sabe porque, decidira pedir a mão da bela ruiva em casamento.
No dia, se sentira resoluto, com toda a certeza deste mundo. Malvado mundo! A medida que o tempo passava, vieram os filhos, um após o outro.
A vida doméstica era boa, mas sempre que a amiga loira passava pela rua, o seu olhar insistia em se desviar para conferir aqueles passos, para ver aqueles cabelos, aqueles quadris e observar a sua bela silhueta. Quando encontrava a amiga nas ruas, no armazem ou na praça, as conversas eram muito animadas. Riam de tudo, os olhares insistiam em se encontrar e as bocas não deixavam de se encarar de maneira quase explícita.
Como a vila era pequena, todas as portas, janelas, ruas e vielas tinham olhos, ouvidos e bocas. Muitas bocas! Então, ele se recolhia para junto da máquina de escrever e dava vazão aos sentimentos que já não podia externar pessoalmente àquela criatura tão querida, tão amada. Quantos romances saíram dali, em situações como esta. Eram vários. Eram muitos. E assim o tempo passava, as marés subiam, baixavam, os dias eram substituidos pelas noites e a vida seguia o seu ritmo, um penoso ritmo.
A ideia de, ao mesmo tempo dividir a sua vida em duas, mesmo que fosse só no seu íntimo, o angustiava, o perturbava. Abriu os olhos e se viu novamente na frente do espelho. Agora, as lágrimas já lhe molhavam a face e as pernas insistiam em se dobrar até o deixar de joelhos, como quem pede perdão pelas faltas, pelos pecados e pelos sacrilégios cometidos durante a existência. Num instante, seus olhos parecem querer saltar das órbitas e um grito sufocado acompanha a forte e aguda dor que irrompe no peito. Era como se o seu indeciso coração finalmente tivesse resolvido tomar alguma decisão; a decisão de pular para fora do peito. Mas, precisava doer tanto? Era quase insuportável! A visão começa a ficar turva e o raciocínio começa a ficar lerdo, fraco, impreciso. Ele sente que as forças o estão abandonando, deixando-o indefeso diante da própria sorte e da própria morte. Sim, ele estava sentindo a presença daquela que só ouvira falar ou só citara em seus textos: a morte!
Tentando chamar por alguém, a voz lhe falta, falha, some, o abandona. Agora, já se vê deitado no chão totalmente entregue e com o olhar fixo no teto. Em instantes, a visão antes turva, se apaga por completo e ele só sente a escuridão. Estranha e fria escuridão que agora o abraça como se fosse uma mortalha. Mas, por algum motivo a dor desaparecera, e isto era bom, muito bom. Aos poucos, sua visão clareia novamente e ele consegue ver aquele corpo de homem, deitado, em repouso no chão. Mas como? Era ele que jazia no chão da sala então já invadida pelos raios de sol da manhã. No mesmo instante, a verdade se descortinou: tinha sido apanhado pela morte, estava indo para uma outra vida, estava a espera de outra sorte.
Pouco a pouco, viu que as pessoas em pânico corriam e se aproximaram de seu corpo, lavando-o com copiosas lágrimas. Ele, porém, estranhamente se sentia bem, aliás muito bem. Passada uma hora, a sala já estava repleta de gente. Amigos, conhecidos, e ali, juntas, lado a lado, os dois amores de sua vida. Para sua alegria, neste instante as duas choravam juntas, abraçadas. Era uma estranha alegria. Começava a perceber que havia sido necessária a sua morte para unir em vida, as duas criaturas amadas. Finalmente, após uma vida inteira ele estava alí, junto das duas mulheres de sua existência terrena em perfeita harmonia, em completa união.
O estranho é que agora, e apenas agora, ele podia estar ao lado de quem quisesse, na hora que bem entendesse. Podia admirar aquelas mulheres que foram a sua vida e que fizeram a sua vida ter valido verdadeiramente a pena ter sido vivida. Ele estava aliviado, se sentia leve. Sua alma estava em paz.
Após quase não terem mais lágrimas para derramar, as duas amadas criaturas se aproximaram da velha máquina de escrever, na esperança de achar ali algo que mantivesse por mais um tempo a sensação de tê-lo por perto. Era como se estivessem a procura de um epitáfio, de uma herança, de um testamento. Eis que, entre uma mistura de sorrisos e choro, elas encontraram o que procuravam. Ali, incrustrada na antiga máquina, estava uma folha datilografada pela metade. Ao mesmo tempo em que um calafrio descia por suas espinhas, dois sorrisos se abriram ao lerem as curtas linhas construidas em tipos pretos e firmemente marcados no papel.
Lá, dizia:
O escritor e as duas mulheres
O velho escritor levara uma vida dividida
Amara muito
Muito em intensidade
Muito em quantidade
Em seu coração, duas metades
Em sua vida, dois caminhos
Em seu pensamento, duas mulheres
Convivia com uma
Vivia para a outra
Casara com uma
Amara também a outra
Nas manhãs da mente, lia o jornal com uma
Nas tardes da vida, declarava-se para a outra
No resto do dia, escrevia inspirado nas musas
Já tarde da noite, quando a luz se apagava
Sua imaginação brilhava
Sua saudade acendia
Sua alma ascendia...
Com uma, tinha filhos
Com a outra, tinha sonhos
Que a outra se tornasse a uma
Que suas almas se tornassem única
Que suas histórias se tornassem una
Que suas almas voassem livres
No frescor da brisa
Sobre as águas calmas
No brilhar da lua
Pela madrugada...
Um dia
O livro fechou
A cortina desceu
A morte chegou
Enquanto outros choravam
Seu espírito feliz, gargalhou
Estava livre para ir
Estava seguro para decidir
Qual o caminho a seguir
Ao lado de quem, descansar...
Era a indicação clara, precisa e escrita que aquela união, que não era apenas carnal, que aquele amor a três, permaneceria vivo através dos tempos, neste e no outro mundo. Quem conviveu, viu! Quem viver, verá! Quem morrer, comprovará!
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Remédio amargo
As vezes, sentimos que a vida nos leva de arrasto, nos jogando e empurrando de qualquer maneira, independente de nossa vontade. Corre-se desordenadamente para cumprir compromissos, para respeitar prazos, para ser simpático com todos, para ser bem visto, para ser responsável com tudo. A sensação de sufoco é constante e crescente. Por mais que se queira ser bom cidadão, bom pai, bom namorado, bom marido, bom amigo, se torna difícil. A sensação de impotência é grande e a confusão de sensações e sentimentos, também. Existem situações em que, para que a ferida cicatrize mais rápido, é necessário que se corte a carne ao seu redor. Tem vezes, que para que a dor desapareça logo, o remédio mais indicado é o mais amargo. E, em outras ocasiões, devemos nos afastar de quem amamos para avaliar o que estamos fazendo com as suas vidas e o que podemos fazer para ficarmos mais próximos, de uma forma mais leal, mais verdadeira. As vezes, é preciso que se tire os móveis de casa para que, se a decisão for voltar, ela se torne mais limpa, agradável e bonita. Eu nunca fui favorável a distâncias, separações, saudades, mas existem ocasiões em que este é o melhor remédio, embora amargo, ruim, dolorido. Se a flor de nosso vaso está sendo sufocada pelas ervas daninhas, talvez seja melhor arrancá-la juntamente com as ervas, para depois replantá-la em uma terra limpa e fecunda, onde ela sem dúvidas, crescerá forte e bonita. O vaso será o mesmo, a flor será a mesma, mas a terra será limpa e arejada. A flor estará melhor. Na maioria das vezes, essas atitudes não são bem vistas, nem bem compreendidas. Cheiram a abandono, a pouco caso, a descaso, a sacanagem. Mas, tenho certeza que o remédio amargo, o corte na carne, a distância e a saudade podem, em muitos casos, tornar tudo melhor. Mas para que isso aconteça, basta a vontade verdadeira de querer mudar, de querer recomeçar de uma forma mais verdadeira. Depende da decisão de cada um. Eu, estou tomando pela primeira vez na vida, o remédio amargo. É ruim, na verdade é horrível, mas resolverá! Tenho fé. O que vier depois, independente do que seja, certamente será muito melhor!
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Cenas
Nos dias de folga e nas noites de insônia, a vida passa pela minha mente devagar, quadro a quadro. As lembranças vêm a vão. Cenas são relembradas e revividas. É como se fosse uma releitura dos fatos acontecidos. Esse exercício serve para analisar tudo o que se passou e as coisas que se fez ao longo da existência. As boas e más lembranças retornam como se fossem filmes. Alguns, eu até gostaria de assistir novamente, já em sua pré-estréia. Já alguns outros, teria sido melhor se eu tivesse perdido o ingresso naquele dia e nunca os ter vivenciado. Boas e más lembranças, pessoas que alegraram ou entristeceram os meus dias, e situações das quais nem que tivesse vontade, não teria mesmo conseguido fugir. Tudo é relembrado, tudo é revivido, tudo é repensado. Acho que esta releitura da vida é interessante. Com ela, analisamos os nossos atos passados, suas influências em nossa vida e, principalmente, na vida dos outros. Assim também, nos é aberta uma possibilidade de não voltar a repetir os erros e as falhas de outrora e nos é oferecida a chance de fazer diferente da próxima vez. Eu gosto desses “exames de consciência”. Apesar de todas as nossas falhas, naturais de seres humanos, e também das recordações dos nossos acertos, temos assim uma oportunidade de mudar alguma coisa no rumo do que ainda resta de nossas vidas.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Até quando?
A música que ouço é sempre a mesma. Uma, duas, cem vezes. Todos reclamam, menos os meus ouvidos. A hora de partir está próxima e a tristeza já se faz presente. Presente indesejado, preferível se fosse passado. Mas, por mais força que eu faça, o passado é cada vez mais presente. Contra-senso, ou falta de hábito com a realidade? Será que tudo deveria mesmo ser assim? As imagens teriam que estar tão vivas na memória? Se são só memórias, não teriam que ser mais vagas? Mas, ao contrário, são vagalhões que varrem da cabeça a razão. E quem não tem razão, jamais terá razão. Parece lógico, não? A resposta é não! Sei que vou, mas deixo o rastro. Me arrasto para deixar de lado, nem que seja um pouco, a tristeza, a falta de alegria. Até quando essa sina? Até quando essa melancolia? Talvez no final da vida acabe, talvez em uma noite como esta, talvez um dia...
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
É a vida...
Decida! De prefreência, agora, já! Ou se é alegre ou se é triste. Ficar aí, parado, calado, nessa indecisão, é coisa que a nada leva, é coisa que nada traz, nada vale, não existe. A vida pode ser boa, pode ser alegre, pode ser dura ou também pode ser triste. Ou se é pão ou se é faca. Quem corta quem? Quem machuca? Quem cutuca? Quem ofende? Quem resiste? Por que as coisas são tão difíceis, tão constantes, tão previsíveis? A prata é curta, a vida é longa, o choro é contido e a mágoa é fiel companhia. É o filho que chora, é o chefe que briga, é o partido que escolhe, é a chaleira que chia. A mãe é forte, a avó é boa, a filha sonha com as nuvens e nelas passeia, revoa. O que deveria ser alegre, não o é. O que se espera da tristeza, sempre é forte, sempre é firme, sempre é garantido, sempre está de pé. Será que a vida é mesmo assim? Ou somos nós os enganados, os inocentes, os desenganados? Muito se espera, pouco se dá, bastante se ouve, muito se pensa, pouco acontecerá. Tudo é certo, tudo se sabe, tudo se vê, nada se livra, tudo terminará em lágrima, tudo se prevê. Deveríamos estar acostumados? Poderíamos ficar desanimados, inquietos, mais desesperados? A saudade é presente, o amor é distante, o sentimento é doído, é letal, é diferente. Saudade? Presente? Presente de quem? Por que? Na chegada ou na partida? Só pode ser dela, da madrasta, da malvada, da carrasca, da vida.
domingo, 4 de janeiro de 2009
Salgada lágrima
Por que a tua lágrima cai? Não deverias estar sorrindo? Com o tempo, aprendemos que coisas como distância, tristeza e saudade são doloridas, mas passageiras. Passageiras com assento reservado ao nosso lado nesta vida de tantas idas e vindas. Por que viemos? Para onde vamos? Por que insistimos? Por que ainda tentamos? Será que um dia, desistimos? Por que nós nunca desanimamos? O dia é escuro e na noite as estrelas orientam, mas os passos são a esmo, sem rumo, sem esperança, cheios de descrença. A dor arde, o cão morde e o tempo da vida já se faz tarde. Mas, não é na tarde que eu te vejo? Se é que eu te vejo, por que choras? Alegria, esperança, desespero? O que sentes ao me ver? Se não sabes, por que não deixas o leito e esperas o dia amanhecer? Já não sei o que penso, não sei o que dizer. Só sei que não gosto que chores. Peço, suplico, imploro. Que ao estar junto de mim, demores. E, que esqueças lá fora, remorsos, mágoas e temores. Insisto ainda, que sorrias, que não chores; com desesperanças e temores, já tivemos dias piores. Afinal, quase no final, por que choras? Além da vida quase inteira perdida, não há nada mais a lamentar. E, de indomável e salgada, basta toda a água do mar.
sábado, 3 de janeiro de 2009
Exame de inconsciência
O que é isso? É a noite que não passa, o sono que não vem e o vento que não acalma. São os pensamentos que não me deixam, as mágoas que não me largam e as lágrimas que não param. São os gritos que não se abafam, os risos que não cessam e as dores que não aliviam. As flores que já se abrem, os filhos que já criam asas e os olhos que já se fecham. É o berro declarado, o afago apagado e o carinho disfarçado. É o choro contido, o sentimento de dever quase cumprido e o arrependimento desmedido. É a avó que ama, é a mãe que abandona, é a madrasta que chora. É a vida que passa, a morte que se achega e a história que se apaga. Por que dói tanto a minha inconsciência? Por que não abri os olhos enquanto na vida ainda era dia? Por que a tristeza é viva, a realidade é dura e tão boba a fantasia? Prefiro a tudo responder que não, escolher esconder o sim e se precisar, me desculpar com um talvez. É cada vez mais claro que quem os joelhos não dobra, o sorriso não abre e as pálpebras não cerra, nada pode esperar de brinde, de presente, de bônus, nem da vida e nem na morte. Aliás, é entregue à própria sorte. É dura a vida, é quase limpa a consciência e visivel o estado de demência. Será que alguém me mostra qual porta abrir, que disfarce vestir e qual rota de fuga seguir?
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Pensamentos desencontrados de uma fria noite de verão
Já são duas horas da manhã e nem por isso tenho sono. O novo ano se iniciou e ainda não trouxe novidades. Sempre esperamos que o novo ano seja melhor que o anterior, mas repetitivamente vemos que quase nada muda a não ser a idade com a qual terminamos cada um desses novos períodos de doze meses. Mas, como já esperar novidades se o ano começou a menos de vinte e quatro horas? O vento uiva lá fora como um lobo faminto. Apesar de ser uma noite de verão, precisei recorrer a um cobertor. Aliás, parece que nem o clima do planeta é mais o mesmo. Ele se manifesta como quer e nos impõe noites frias no verão e invernos mais amenos do que os que estávamos acostumados. A continuar assim, o que será deste mundo em que vivemos? Mudanças climáticas, crises econômicas mundiais, furacões, enchentes e coisas do gênero nos assolam cada vez com mais intensidade e em menores intervalos de tempo. O que uma noite de insônia faz com um homem... Ele até pensa nos problemas do planeta e da humanidade. Quem sabe estas horas na madrugada não se tornam boas conselheiras e apresentam boas idéias e soluções para alguma coisa? O silêncio é ensurdecedor e provoca eco na minha mente. Consigo até ouvir o som das palavras pensadas! É uma pena que meus dedos no teclado não acompanhem a velocidade dos pensamentos. É uma pena! São pensamentos que chegam, fazem eco e saem tão rápidos como chegaram. Não sei se isso é bom. Aliás, também notei que não consigo verbalizar em palavras as coisas de maneira tão rápida como elas chegam à minha cabeça. Isso será grave? Mais uma vez, a resposta é um sonoro e estridente “não sei!” Será que já estou sonhando? Mas como, se ainda nem dormi? Eu já devo estar pensando bobagens. Ainda bem que ninguém escuta pensamentos. Acho que estou salvo! O maior perigo que corro é de alguém ler essas linhas que estou escrevendo. Não! Quem iria ler isso? Ainda bem! Afinal, não sei se a essa hora eu ainda domino os pensamentos ou são eles que me dão as ordens. Bem, acho que vou tentar dormir. Já chega de pensar bobagens! E, ainda tenho trezentos e sessenta e quatro dias desse novo ano pela frente. Tomara que eu possa dormir mais e pensar menos. O resultado pode ser bem melhor tanto para mim quanto para a humanidade. Isso, se a humanidade desse alguma importância aos pensamentos insones de qualquer um. Quanta pretensão! Realmente, é melhor tentar dormir!
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Reinício
Os fogos de artifício anunciaram a virada da folhinha. Bonitas festas e muita alegria marcaram o final de um ano e o nascer de outro. Amanhã, bancos e lojas reabrem e a vida volta às ruas. Eis que 2009 chegou! Vamos com vontade, disposição e fé ao encontro dele! Afinal, a luta continua...
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Feliz Ano Novo!
Hoje, encerra-se mais um ano em nosso calendário. Foi mais um período de trezentos e sessenta e cinco dias que passou e que nos trouxe alegrias, tristezas, conquistas, vitórias e também derrotas. Para as pessoas comuns, foi mais um ano que passou. Para os atletas, foi mais uma temporada de campeonatos, competições e títulos. Para os mestres e alunos, foi mais um ano letivo nas escolas e universidades da existência. Para as mães, foi mais um ano completado por seu filho, onde ele aprendeu coisas novas e evoluiu como pessoa e como ser humano. Para os profissionais, foi mais um ano de trabalho e dedicação às suas atividades laborais. Para os enamorados, foi mais um tempo de paixão, onde o amor floresceu ou se tornou maior. Para os investidores, foi mais um tempo em que dinheiro foi ganho ou perdido com sorte, astúcia ou azar. Para os governantes, foi mais um ano onde crises, embaraços políticos e eleições tiveram que ser administradas. E, como cada um emite as suas opiniões a partir de seu ponto de vista ou da posição que se encontra em relação aos fatos, para os astronautas que estão em órbita da Terra, o ano que hoje se encerra não passou de mais uma volta que o nosso planeta deu ao redor do Sol, em eu eterno movimento de translação. Independentemente da maneira de cada um ver as coisas, sempre esperamos que o novo ano que se inicia seja melhor que o anterior. Esperamos sempre que possamos ter mais saúde, mais dinheiro e mais alegrias. Seja como for, onde quer que estejamos ou com quem estaremos na virada da meia noite, que possamos pensar apenas em coisas boas para nós e para o mundo. Que os nossos desejos e intenções possam entrar em ressonância e criar uma grande onda positiva a atingir essa humanidade tão necessitada de paz ao redor do planeta. E como é sempre bom pensar alto, eu faço como os astronautas em sua privilegiada janela para o mundo: desejo que a próxima translação da Terra possa ser a melhor de nossas vidas! Seja você quem for, esteja você onde estiver, um Feliz 2009!
sábado, 27 de dezembro de 2008
Fute o que?
Existe uma terra longínqua, onde o povo cultiva estranhos hábitos. Entre eles, se destaca um. Por alguma influência que não se sabe de onde veio e inspirados em uns poucos compatriotas que obtiveram sucesso na vida jogando com uma bola um esporte chamado futebol, a grande maioria desse povo, nas horas vagas, pratica este esporte. Ou, pelo menos, tenta praticar. São crianças, adolescentes, jovens e adultos dispostos entre quatro linhas, divididos em duas equipes, correndo atrás de uma bola. Entre esse grande número de praticantes, às vezes, sobressai-se um que vai se juntar ao seleto grupo de milionárias estrelas do estranho esporte. Mas, na maioria das vezes, o que realmente se vê são barrigudos senhores saindo do campo de jogo e indo diretamente aos hospitais, cuidar das lesões sofridas durante a competição. São torções, fraturas e contusões que se acumulam nas fichas corridas dos pacientes. Apesar das caretas de dor e das promessas de parar, quinze ou vinte dias depois, lá estão eles dentro das quatro linhas novamente. Que estranha magia terá essa bola e por que tanta euforia é sentida ao conseguir coloca-la dentro do retângulo de paus guarnecido por redes, chamado de gol? Acho que para saber, deve-se correr, transpirar, tentar, insistir e, se possível, colocar a bola dentro das redes. Aí, é só esperar pela sensação que haverá de vir. Só assim será possível compreender o estranho hábito desse esquisito, alegre e irreverente povo. Qualquer semelhança com algo conhecido terá sido alguma coincidência?
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Turbulência
Complicada foi a situação de passageiros e tripulantes daquele vôo, durante aquela forte turbulência. Enquanto todos apertavam os cintos e se seguravam, os tripulantes faziam das tripas, coração. As comissárias guardavam rapidamente o carrinho com as bebidas e se seguravam firme para não cair. Ao mesmo tempo em que, pelo sistema de som, o comandante insistia para que todos se sentassem, aquele intrépido comissário insistia em atender ao pedido daquela jovem passageira: um copo d’água. Ele caminhava bravamente, mantendo o copo quase cheio sem derramar, ao mesmo tempo em que procurava se manter em pé. Passo a passo, copo quase derramando, suor frio no rosto. Insistiu nesse embate até que, em um movimento rápido, deu um belo gole naquela água mineral. Pronto! Ele se manteria em pé ao se segurar nas poltronas, aquela água já não molharia ninguém e a passageira ficaria satisfeita com a sua presteza e dedicação. A satisfação do cliente acima de tudo!
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Feliz Natal!
A paz reina absoluta à beira das águas da Lagoa dos Patos. A noite de hoje é de mais paz. Em todos os cantos do mundo, as pessoas estão mais próximas nessa noite. Um sentimento diferente aproxima a todos. As famílias estão reunidas, os adultos conversam ao redor das mesas e as crianças estão mais alegres. Afinal, hoje é Natal! Que a noite de hoje possa ser, realmente, uma noite de paz em todos os lares! Feliz Natal a todos!
São Lourenço do Sul - RS,
24/12/2008
21h 32 min
São Lourenço do Sul - RS,
24/12/2008
21h 32 min
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Emoções...
Qual é a emoção de um velho músico ao encerrar o seu último concerto e encarar os aplausos do público pela última vez, antes da aposentadoria? O que sentem os pais que se despedem de um filho que viaja para longe, seja para estudar ou para iniciar uma nova vida? O que sente um médico que, após intensa luta pela vida de um paciente, o perde? O que sentem os familiares que perdem alguém querido em um acidente de trânsito ou em um assalto violento? São, cada um a sua maneira, sentimentos de perda. Uns são mais intensos que outros, mas todos deixam uma sensação de ausência, de vazio. Quando mais um ano se encerra, muitas dessas sensações nos vêm à mente. Relembramos de cada situação vivida, cada alegria e, principalmente, de cada momento de tristeza. É algo involuntário, que simplesmente chega e se instala em nós. Melancolia? Depressão? Ou é simplesmente tristeza por vermos que mais um ano passou tão rápido que mal tivemos tempo de aproveitá-lo? A correria, as dificuldades e as lutas diárias não nos permitiram ver o tempo passar e nem a beleza de cada dia que se foi. Estas são sensações e emoções de final de ano. Talvez nessa época, tenhamos uma sensação de perda pelas coisas que não conseguimos realizar, juntamente com a constatação de que o tempo não para. Além de não parar, percebemos que ele corre cada vez mais depressa. Em doze dias, teremos que começar tudo de novo, pois 2009 vem aí. É a vida! Pensando bem, ainda bem que ela segue! Que venha o novo ano e que a luta continue!
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Então, é Natal...
Mais um ano está chegando ao seu final. Hoje a tarde, aconteceu um Auto de Natal encenado por funcionários da empresa onde trabalho. É interessante e emocionante ver colegas de trabalho representando, encarnando personagens e contando a história do Natal. A apresentação aconteceu no pátio da empresa e foi assistida por muitos de nós. Nessa hora, são deixadas de lado todas as diferenças e as discussões que possam ter acontecido ao longo dos onze meses e pouco, já passados. Por alguns momentos estamos ali, em paz, com o coração leve e totalmente envolvidos com o espírito de Natal, que alegra e contagia. É muito bom fazer parte de uma grande empresa. É muito bom partilhar de uma alegria como essa com vários colegas e amigos. É muito bom estar com o coração desarmado de rancores e com a alma limpa, nesse tempo em que se finda mais um ano, mais um ciclo da vida. Por pouco mais de uma hora, deixamos de lado os equipamentos, os computadores e as máquinas diversas com as quais nos envolvemos diariamente, e nos doamos um pouco para comemorar esse tempo de boa vontade entre os homens. Tomara esses momentos durassem para sempre!
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
As palavras que ninguém lê
É muito interessante ter uma coluna em algum meio de comunicação, seja ele um jornal, uma revista, ou um site na Internet. O bom é que ali se pode exprimir idéias, emitir opiniões e desenvolver pensamentos. Uma idéia maluca me surgiu agora. Mais interessante ainda, deve ser possuir um espaço assim que não seja lido por ninguém. Os artigos são ali colocados e lá permanecem intactos. As colunas são cuidadosamente digitadas e continuam incólumes. Os textos são publicados e permanecem no anonimato. Pode-se assim até contar segredos nesse espaço, pois eles ficarão bem guardados embora com acesso a qualquer um que se disponha a pesquisar. É até um jogo interessante esse, de esconder segredos em um local em que todo mundo possa ver. Se parece como um jogo de gato e rato, um caça-tesouros ou algo assim. Talvez um segredo revelado e não percebido até ganhe ares de algo maior. É como se fosse um risco corrido, porém calculado. Neste espaço, pode-se propor charadas, inventar enigmas ou simplesmente contar algo sério, fazer uma confissão, que não será nem notado. Corre-se ainda o risco de que quando isto for percebido, mesmo daqui a muitos anos, ganhar um prêmio pela criatividade. Nesse mundo maluco, quem sabe as palavras escritas e expostas para que ninguém perceba, não possam ser consideradas uma obra de arte? Seria uma arte abstrata, absorta, absorvida, ou simplesmente uma grande bobagem?
Introdução ao estudo das lágrimas
De onde elas vêm? O que são as lágrimas? Por que elas irrompem em nossos olhos em muitas situações? Na maioria das vezes, lavam o nosso rosto vindo sem qualquer aviso. Surgem líquidas, límpidas, cristalinas, expressando e demonstrando diferentes sentimentos como dores, tristezas e até alegrias. Existem as lágrimas de desesperança, as lágrimas de dor, as lágrimas de amor, as lágrimas de saudade e até mesmo as lágrimas de felicidade. Elas exprimem sentimentos de uma forma silenciosa, tornando nesse momento, desnecessárias as palavras. Aliás, elas cumprem sua missão em um belo e singelo silêncio. Em sua curta vida, essas pequenas gotas geradas no olhar, caminham pela face e vêm nos lábios desaguar. Quem somos nós para entender a grandeza das lágrimas?
sábado, 13 de dezembro de 2008
Até que enfim!
Ele escrevera um roteiro para o cinema, que foi sucesso total com a sua vizinha, que o amava. Escreveu letras de música, que a sua tia adorou. Lançou um livro que foi o mais lido por seus dois filhos. Em um belo dia de novembro, o seu coração parou. Ao enterro, compareceram todas as sete pessoas da família. Quinze dias depois, as contas começaram a vencer. Foi aí que ele foi reconhecido por seu maior público. Da manhã até a noite, filas de credores e cobradores se formavam em frente a sua casa. O reconhecimento tarda, mas acontece.
Eu não sou eu!
Depois de muito tempo enganado, finalmente percebi! Eu não sou eu! Por estranho que possa parecer, foi a essa conclusão que cheguei. Eu sempre me considerei um bom cidadão, um bom pai, um bom namorado, um bom marido, enfim, um exemplo. Pensei ter virtudes e ser alguém para ser observado e, quem sabe, imitado. Hoje, olhando para trás, percebo que não é bem assim. Sempre trabalhei muito para prover o sustento de todos em casa, mas, e o resto? Terei sido um pai que dialogou sempre que os filhos tiveram alguma dúvida em relação à vida? Propus-me a “discutir a relação” sempre que havia algum motivo para uma conversa mais séria com a mulher que estava ao meu lado? No trabalho, será que sempre tive atenção com os colegas que traziam problemas ou simplesmente queriam conversar? Será que sempre tentei ser cortês no trânsito, com os outros motoristas que nem sempre dirigiram da maneira mais adequada? Ou essa maneira era adequada e eu não percebi? A minha cota de paciência terá sido suficiente para que eu convivesse bem com todos? Acho que a maior parte dessas respostas é não. Não sei se esta reflexão é causada pela chegada do final de mais um ano, mas ela está acontecendo. Mesmo achando a princípio estranho, acho que ela é boa, pois permite ver aquilo que realmente fomos, somos, e quem sabe, melhorar aquilo que podemos vir a ser. Ou, pode ser apenas mais um daqueles estranhos balanços mentais de final de ano que costumamos fazer, que resultam em promessas de mudança que jamais serão cumpridas. Sei lá!
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
É o fim...do ano
Está chegando mais um final de ano. Vêm aí o Natal e as festas de Ano Novo. Mas, o que estará acontecendo com as festividades de nossos finais de ano? Eu lembro que, antigamente, a chegada do Natal era uma festa. Não sei se era por sermos crianças, mas como ficávamos eufóricos com essa época do ano! Atualmente, o Natal representa apenas uma data em que o comércio vai faturar mais que nos outros onze meses do período. Percebo que as crianças já não sonham e os pais não fazem nenhum esforço para que esses sonhos voltem a povoar as suas mentes. Será errado falar aos pequenos de hoje, sobre o Papai Noel? É politicamente incorreto dizer à eles que é o bom velhinho que fabrica e traz os presentes na noite de Natal? Será que essa “mentirinha pura” vai trazer algum mal aos petizes? Mas, será que se disséssemos isso, eles acreditariam? Onde está ficando a inocência que as crianças possuíam? Elas não estão se tornando adultas, cedo demais? Eu recordo que os meus filhos foram criados com a expectativa da chegada do Papai Noel, com a euforia de abrir os presentes e com os largos sorrisos ao poder brincar com os brinquedos recebidos. Como aqueles sorrisos inocentes me faziam bem! Hoje, me pego sonhando e recordando destas coisas, como um velho. Preciso me apressar, pois o supermercado e o shopping devem estar cheios. Vou correr para garantir a ceia e os presentes, e mostrar aos meus filhos, quase adultos, que Papai Noel continua vivo.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
O velho, pesado e eterno som
O que pode o velho roqueiro fazer? Colocar o vinil na vitrola, fechar os olhos e quase chorar, lembrando de quando via e ouvia as suas bandas. Aquilo era som de verdade! Além disso, aquela era a época da descoberta, da revolta, da contestação, da juventude. Hoje, até os chiados e arranhões do velho disco trazem de volta a magia. Onde estão Jimmy Page, Ian Paice, Robert Plant, David Gilmour, Ritchie Blackmore, Roger Glover, Geezer Butler, Jon Lord, Ian Gillan e Ozzy Osbourne? Ouço ainda a música desses caras e tento sentir que tudo isso ainda continua vivo e a todo vapor. Mas, por que essas guitarras estão, aos poucos, silenciando? O que está fazendo parar o peso da bateria e o pulsar do velho baixo? E os teclados, porque não soam mais como antes? Mas, o velho jeans, o tênis e a camiseta me dizem que isso tudo não morreu e jamais morrerá. Dentro de mim, ouço todos esses sons no volume máximo, e é isso que ainda marca a cadência dos meus passos e o ritmo do meu coração...
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