sábado, 22 de novembro de 2008

Uma janela para a vida

Um fato acontecido há uns tempos atrás, não me sai da mente, retornando de vez em quando. Meus filhos ainda estavam no ensino fundamental, quando aconteceu um passeio ciclístico promovido pela escola. Alunos e professores pedalavam em um grande grupo pelas ruas do centro da cidade, em uma manhã de domingo. Crianças sorridentes e barulhentas, professores preocupados e pais atentos, acompanhando tudo a pé, pelas calçadas. Muitas ruas percorridas e várias esquinas depois, o grupo passava em frente a um antigo e mal cuidado prédio residencial. No cenário de paredes descascadas, percebiam-se todas as janelas fechadas, menos uma, no último andar. Nessa janela, surgiu a figura de uma senhora idosa de cabelos brancos e com os ombros curvados pelo tempo. Ao perceber a passagem daquela quantidade incomum de bicicletas e crianças, aquela senhora se transformou. Ela, aos pulos, acenava e enviava beijos a todos os que passavam aos seus pés, na rua. O seu sorriso era de tal maneira aberto e franco, que eu não me lembro de já ter visto outro que transmitisse tanta sinceridade. Ela sorria muito, acenava e sabe lá com que forças, pulava! Fiquei imaginando o que se passava na mente daquela senhora. Há quanto tempo, ela não via algo que a alegrasse tanto? Que tipo de vida ela levava ali, entre aquelas paredes? Ela sofreria de alguma enfermidade? Sentiria dores? Quais as sensações que aquelas crianças montadas em suas bicicletas haviam trazido a ela? Há quanto tempo ela não sorria assim? Recordo, que quando a última bicicleta passou, ela colocou a cabeça para fora da janela e deu uma última espiada. Arriscou um último aceno e, já séria, voltou para dentro. Nos minutos seguintes, a sua vida voltaria à rotina? Seria uma rotina pesada, de sofrimentos? As bicicletas e as crianças viraram a próxima esquina e eu já não via a velha senhora em sua janela. Recordo que fiquei pensando naquele fato, mas logo já era hora de recolher meus filhos e guardar as bicicletas no carro. Hoje, alguns anos depois, passei em frente ao antigo prédio. Meus olhos se apressaram em se fixar naquela janela. Lá estava ela, caixilho de madeira quase sem tinta e vidros abaixados. Hoje, ela estava fechada. Não vi aquela senhora, personagem quase infantil daquela alegre cena passada no palco de sua janela e que marcou definitivamente as minhas lembranças. Hoje, ela estaria deitada? Fazendo alguma refeição? Ou ela já partiu desse mundo? Não sei. Só sei, que de alguma maneira, aquelas crianças ciclistas deram alguns minutos de intensa alegria para a velha senhora. E ela deu a todos os que passavam pela rua, um exemplo único de simplicidade e de alegria com algo tão singelo como um grupo de crianças. Talvez tenha sido essa, a visão que tenha alegrado os seus últimos tempos de vida. Como saber? Acho que prefiro ficar com a lembrança daqueles cabelos brancos e daquele sorriso que, confesso, ainda não vi outro igual.
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