sábado, 14 de março de 2009
Espremedura
Escolheu? Ficou bom? Não trocamos! E nem devolvemos o dinheiro! Dirija-se ao caixa, logo atrás daquela senhora, a septuagésima primeira da fila. Passe o seu cartão! Crédito ou débito? Digitou a senha? Entre logo após aquele senhor, na fila dos pacotes. Tenha uma boa tarde...se puder! Estamos vivendo um outro tipo de escravidão. É a escravidão do consumo, dos gastos desnecessários e da compulsão pelas compras. Como é possível não termos as roupas da moda e não dirigirmos um carro do ano? Onde já se viu os nossos filhos irem para a escola sem um tênis daquela marca? E o boné? Instrumento indispensável ao aprendizado! É inadmissível não passarmos as tardes de domingo em um shopping e muito menos ainda não termos assistido àquele filme que ganhou o Oscar! Não estar na fila para o hambúrguer, é imperdoável. Nós estamos sendo verdadeiros sonâmbulos existenciais que cometem muitas vezes o pecado de ser financeiramente incompetentes para estar em constante sintonia com tudo isso. Estamos virando suco na prensa do consumo. E, pior, nem é um suco muito natural...
segunda-feira, 9 de março de 2009
No jardim
Hoje cedo, liguei para a minha mãe, como eu faço quase sempre. Lá estava ela, no jardim. Feliz e animada do alto dos seus oitenta e quatro anos, me disse que havia levantado cedo, tomado café e ido limpar os canteiros, replantar algumas mudas de flores e regar as suas plantas. Fiquei muito feliz ao sentir em sua voz, a disposição e a vitalidade. Após passar uma vida de lutas e dificuldades, auxiliando meu pai a nos criar, educar e dar o melhor que ela pode, nada mais justo poder se dedicar às linhas, às lãs, ao jardim e às flores. É a recompensa de uma mulher guerreira que sempre lutou bravamente por seus filhos e sua família. Felizes daquelas flores, que podem sentir hoje, o carinho daquelas mãos trabalhadoras e bondosas. Tenho certeza que aquele, é o jardim mais bonito da vizinhança! Existe carinho e amor, além de terra, naqueles canteiros.
Sob o luar
Os raios do luar descem embalados pela fria brisa da noite. Entram pela sacada e clareiam o chão, o quarto, a cama. Lá embaixo, parte da cidade dorme. Inspirado pela lua, invado o teu universo, lentamente. Pela manhã, a chuva lava as ruas, as janelas e as almas. Abro os olhos e vejo que ainda tenho a tua presença. Não penso em sair daqui tão cedo. Não me deixe acordar. A realidade poderia não ser assim, tão perfeita.
sexta-feira, 6 de março de 2009
Bom dia!?!
Todas as manhãs, ao chegar ao escritório e cumprimentar o pessoal, eu travava o seguinte diálogo com um colega:
Bom dia!
Bom dia, por que? O que você sabe de bom, que eu ainda não sei?
Ou ainda:
Olá! Tudo bem?
Tudo bem? Só se for para você, que ganha bem...
E assim acontecia todos os dias. O meu cumprimento e a resposta dele. Era o mesmo diálogo travado a cada manhã. Eu ficava pensando: seriam estas, as respostas de uma pessoa extremamente pessimista? Ou ele realmente passava por dificuldades intransponíveis e, por isso, não conseguia começar bem, pelo menos um dia? Diariamente, eu ficava matutando sobre isso e me fazia essas indagações. O tempo passou. Hoje, pela manhã, após enfrentar um trânsito quase caótico para ir ao trabalho e passar pelo caixa eletrônico do banco para ver o meu saldo, me bateu uma dúvida. Afinal de contas, bom dia por que mesmo?
Bom dia!
Bom dia, por que? O que você sabe de bom, que eu ainda não sei?
Ou ainda:
Olá! Tudo bem?
Tudo bem? Só se for para você, que ganha bem...
E assim acontecia todos os dias. O meu cumprimento e a resposta dele. Era o mesmo diálogo travado a cada manhã. Eu ficava pensando: seriam estas, as respostas de uma pessoa extremamente pessimista? Ou ele realmente passava por dificuldades intransponíveis e, por isso, não conseguia começar bem, pelo menos um dia? Diariamente, eu ficava matutando sobre isso e me fazia essas indagações. O tempo passou. Hoje, pela manhã, após enfrentar um trânsito quase caótico para ir ao trabalho e passar pelo caixa eletrônico do banco para ver o meu saldo, me bateu uma dúvida. Afinal de contas, bom dia por que mesmo?
terça-feira, 3 de março de 2009
segunda-feira, 2 de março de 2009
De menor importância...
Ele sempre se incumbiu de coisas pequenas. Na infância, não brincava no chão para não sujar os brinquedos e a roupa. Na escola, era um dos alunos mais quietos da sala, para não ser notado. Na juventude, a timidez o impedia de se aproximar das garotas. Durante a vida adulta, se enfurnou na mesa do fundo em uma repartição pública, onde não era necessário fazer esforço algum para receber o salário no final do mês. Aos setenta anos, morreu. Ao seu enterro, quase ninguém foi. Afinal, era um dia chuvoso e ele sempre se ocupara de espetáculos de menor importância, mesmo quando era o personagem principal...
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Mesmo assim...
Se você não sabe cantar, fale a letra da canção. Mas, se deixe embalar. Se não souber dançar, arraste os pés ao som da música. Ser levado pelo movimento dos passos, pode te deixar mais leve. Se não souber recitar, leia as frases que compõem a poesia. Isso pode aliviar a sua alma. Se não tiver fôlego ou forças para correr, caminhe. Mas, faça o possível para se manter em movimento. Se não estiver preparado para tirar a nota máxima naquela prova, faça-a assim mesmo. Receba a nota que expresse o seu merecimento ou conhecimento e siga em frente. Se não souber como levar a vida, viva assim mesmo. Insista! Alguém depende disso ou, por alguma razão, espera que você exista...
sábado, 14 de fevereiro de 2009
A Era de Aquário
Segundo astrônomos, astrólogos, cientistas e PhDs de várias partes do mundo em seus estudos, inicia-se hoje, a Era de Aquário. Segundo eles, ao amanhecer do dia 14 de fevereiro de 2009, o dia dedicado a Saint Valentine, o santo padroeiro do amor, a Lua em Libra entra na sétima casa, a casa dos relacionamentos. Júpiter e Marte se alinham em Aquário na décima segunda casa da transformação espiritual. O Universo traz este alinhamento perfeito para dar sustentação a uma manifestação coletiva de amor, paz e ao início da Era de Aquário. Há quarenta anos a letra intuitiva de uma canção chamada Aquarius, trouxe o início de uma nova era para a consciência coletiva.
Ela dizia:
When the Moon is in the seventh house
and Jupiter aligns with Mars
Then peace will guide the planets
and love will steer the stars
This is the dawning of the age of Aquarius
(Quando a Lua estiver na sétima casa
e Jupiter estiver alinhado com Marte
então a paz conduzirá os planetas
e o amor orientará as estrelas
este é o início da Era de Aquário)
Segundo os estudiosos, inicia-se hoje uma era de fraternidade universal, onde será possível solucionar os problemas sociais de maneira igual para todos e com grandiosas oportunidades para o desenvolvimento intelectual e espiritual. Explicam eles que Aquario é um signo aéreo, científico, intelectual e o seu planeta regente, Urano, é associado com a intuição (conhecimento acima da razão) e com as percepções diretas do coração. No nível mundano, este planeta rege a eletricidade e a tecnologia. Eu não sou um estudioso do assunto, mas espero que estas pessoas estejam certas e que a partir de hoje, inicie-se uma nova era. Uma era onde o entendimento e a paz entre os diversos povos, etnias, credos religiosos, ideologias políticas e raças possa ser real e verdadeiro. Tomara seja hoje, o início de um novo tempo para a humanidade e para esse mundo onde vivemos. Que assim seja!
* Pesquisa no Google
Ela dizia:
When the Moon is in the seventh house
and Jupiter aligns with Mars
Then peace will guide the planets
and love will steer the stars
This is the dawning of the age of Aquarius
(Quando a Lua estiver na sétima casa
e Jupiter estiver alinhado com Marte
então a paz conduzirá os planetas
e o amor orientará as estrelas
este é o início da Era de Aquário)
Segundo os estudiosos, inicia-se hoje uma era de fraternidade universal, onde será possível solucionar os problemas sociais de maneira igual para todos e com grandiosas oportunidades para o desenvolvimento intelectual e espiritual. Explicam eles que Aquario é um signo aéreo, científico, intelectual e o seu planeta regente, Urano, é associado com a intuição (conhecimento acima da razão) e com as percepções diretas do coração. No nível mundano, este planeta rege a eletricidade e a tecnologia. Eu não sou um estudioso do assunto, mas espero que estas pessoas estejam certas e que a partir de hoje, inicie-se uma nova era. Uma era onde o entendimento e a paz entre os diversos povos, etnias, credos religiosos, ideologias políticas e raças possa ser real e verdadeiro. Tomara seja hoje, o início de um novo tempo para a humanidade e para esse mundo onde vivemos. Que assim seja!
* Pesquisa no Google
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Ô, vidão!
É algo inerente do ser humano se queixar de quase tudo. Se chove, reclamamos da molhadeira, da umidade, dos calçados encharcados e do guarda chuva pingando água pelo chão da sala. Se faz calor, reclamamos do sol forte, da falta de sombra para descansar, da transpiração e do desodorante vencido. Se no trabalho se apresenta algum problema mais sério e que não consideramos responsabilidade nossa, nós esbravejamos antes de resolvê-lo. Também é assim quando o dinheiro está curto, quando o nosso time perde ou quando a gripe nos ataca um pouco mais forte. Eu também sou assim. Quase todos agem assim. Mas, será que se nós fizéssemos um esforço para gostar da nossa vida como ela é, para enfrentar as situações tais como elas se apresentam, não seria melhor? Não viveríamos mais felizes? O nosso fardo não seria mais leve? Muitas vezes, as crianças nos dão um belo exemplo de aceitação, alegria e confiança na vida que valeria a pena ser seguido ou, no mínimo, observado. É como diz o meu sobrinho Gustavo, de cinco anos de idade, ao se ver sentado no tapete da sala, rodeado de brinquedos:
“Ô vidão!”
E a nossa vida, na maior parte do tempo, não é um vidão?
“Ô vidão!”
E a nossa vida, na maior parte do tempo, não é um vidão?
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Quase perfeito...
Aquela era uma cidade onde tudo acontecia de maneira ordenada e irretocável. Mesmo nos dias de sol, a população levava consigo um guarda chuvas. Afinal, a qualquer instante poderia chover. E, o que aconteceria se as roupas molhassem? Quando as babás levavam as crianças para brincar no parque, carregavam sempre uma outra roupa branquinha para trocar no pimpolho, após as brincadeiras. O que as pessoas falariam ao ver uma criança com as roupas sujas? Nas empresas, os funcionários estavam sempre dispostos a mudar de atitude ou de comportamento para combinar com o humor mostrado pelo gerente, naquele dia. O que o chefe poderia pensar de cada um, se as opiniões divergissem ou se aquela risada fosse considerada inadequada? Nas ruas, as pessoas evitavam falar ou rir muito alto para não perturbar o sossego de quem mais andasse por ali. Durante o outono, mal as folhas caíam no chão e imediatamente eram recolhidas pelos garis, atentos e rápidos. Tudo era correto e funcionava de uma forma automaticamente perfeita. Mas, estranhamente, a população era triste. A falta de sorrisos nos rostos era visível. Aquela perfeição era insuportavelmente chata! Existia uma ânsia aprisionada de tomar um banho de chuva. Nos íntimos, fervilhava uma vontade de jogar bola na praça, até ficar exausto. Que vontade de jogar um papel de bala no chão...!
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Janelas
A composição é comprida, mas mesmo assim, nada! No passar das janelas da vida, tenho tentado te encontrar. Mas, ou ela passa muito rápido ou é você que anda se escondendo. Corro para mudar de janela. Algumas, encontro ainda escuras pelo amanhecer da existência. Outras, já anoitecendo, pelo tempo passado e perdido. Mesmo nas mais claras e iluminadas, como a de ontem ou a de hoje, você também não está. Ou são as minhas lentes, já fracas, que não captam a tua imagem ou já é a sombra do desespero que a tudo encobre. Continuarei tentando nas próximas janelas, a de amanhã e a de depois, encontrar algum vestígio teu. Ou, ao menos, o teu perfume ainda no ar. Não se esconda mais! O comboio da vida é longo, mas um dia as janelas acabam e nos batemos de frente com o seu final. Se tivermos sorte, estaremos em alguma estação. Caso contrário, terminaremos perdidos em algum lugar, entre os trilhos simetricamente longos e frios.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Motivos
Ficamos procurando consolo, as respostas e os motivos dos nossos atos em cada nota musical. A cada som que chega aos ouvidos, procuro um alento, uma desculpa, um perdão. Mas, ao contrário do que diz a música, as pessoas são outras, são duras, são diferentes. Nas mentes, não há lugar para preocupações, dúvidas, interrogação. A solução é fechar os olhos. A saída é tentar chamar a atenção. O consolo é ser notado. O destino já traçado, desenhado nas linhas da mão. Talvez na escuridão da falta do olhar possa estar o alento. Na imensidão da falta de amar está o castigo. No silêncio da noite se encontra o desespero. Sobre cada um o pecado, bem acima de todos, o perdão. Não deixe a música parar. Que antes pare o coração.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Na memória...
O menino nasceu e passou a infância às margens da grande lagoa. Junto com a mãe e os irmãos passava as tardes na praia, nos quentes dias de verão. Iam municiados de um tarro de alumínio cheio de limonada gelada e guloseimas como pastéis, cucas e outros salgados e doces. Era uma festa sair da água com os dedos enrugados e encontrar o olhar carinhoso da mãe, uma toalha quente e aquele lanche delicioso. Era uma festa também para os amigos e primos que se encontrassem por perto. Após o lanche revigorante, novos mergulhos e jogos de futebol na areia. No final da tarde chegava o pai para dar umas braçadas com os filhos e voltar com todos para casa. Também passava as suas horas no meio da plantação de arroz da família. As águas, sempre elas, que banhavam o arroz irrigado durante todo o período de plantio também eram motivo de festa. Espantar os pássaros que se aproximavam dos pés de arroz verdinho e pular entre as marachas na lavoura lhe traziam alegria. Os campos de futebol cobertos de cascas de arroz construídos no quintal de casa com as traves feitas de bambu foram testemunhas de muitos “rachas” de bola. As lutas de espadas feitas com sarrafos e ripas do galpão de casa sempre acabavam em paz. Os passeios escondidos no cavalo do vizinho, dono do engenho de arroz, eram uma aventura e um segredo guardado a sete chaves. Os dias chuvosos em que saía protegido pela capa de chuva com capuz, feita de uma grossa lã azul marinho se transformavam também em uma jornada de aventura. Era como se estivesse atravessando geleiras ou andando em uma cidade fantasma sob um intenso temporal. A imaginação corria solta. Os seus vários cachorros na infância, entre eles tendo destaque o Lobo sempre foram companheiros de brincadeiras. O leite tirado direto das vacas e bebido com vontade e as uvas colhidas direto no parreiral de casa sempre foram apreciados. Os banhos de chuva nas ruas de terra e as brincadeiras de Tarzan nas árvores, eram sinônimos de tardes cheias de emoção. Eu já era feliz mas ainda não sabia.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
No coração...
A época era outra. Era no tempo em que os nobres andavam de carruagem e as roupas exibiam detalhes em renda e veludo. As ruas eram pavimentadas em pedra e iluminadas por lampiões. Era um tempo em que os rapazes cavalgavam e se exibiam em jogos de habilidade e força e as moças casadoiras olhavam com interesse para esses jovens nas festas e bailes da sociedade, na esperança de um bom casamento.
Era costume a moça deixar cair ou atirar o seu lenço em direção ao pretendido, a fim de chamar sua atenção e dar início a um namoro. Os encontros eram marcados por reverências de ambas as partes. As moças abaixavam suavemente o corpo, deixando encostar no chão os longos e belos vestidos rodados. Já os rapazes, inclinavam a cabeça e tiravam o chapéu, em um sinal de respeito e admiração pela beleza das jovens donzelas.
Um belo dia, o país entrou em guerra. Além do exército normal, foram convocados todos os jovens em idade de serviço militar para defender as fronteiras do país nas trincheiras encravadas nas pradarias do norte. Exército enfileirado e soldados equipados, começa o desfile das tropas em direção ao porto para o embarque no navio que os conduziria à frente de batalha. Uniformes impecáveis, mochila e bolsas com pólvora e balas de chumbo transformavam aqueles jovens em soldados prontos para a guerra. Ao ombro, levavam os longos e reluzentes mosquetões guarnecidos por uma longa baioneta. Estavam prontos para a batalha. A multidão, enfileirada ao longo das ruas que conduzem ao porto, promove um festivo ato de apoio, saudando os bravos soldados que irão defendê-los, fazendo frente aos inimigos.
Ao passar por sua amada, que entre lágrimas e sorrisos o aguarda, o jovem soldado a fita nos olhos, na esperança de ouvir alguma coisa que lhe dê forças para a jornada. Ela, em um gesto rápido, lhe atira o lenço perfumado e grita que o ama. Ele, entre um misto de atônito e feliz, grita a plenos pulmões que assim como o lenço, ela estará sempre junto de seu coração.
O navio, movido por longas e altas velas, se afasta e só deixa os soldados alguns dias depois em um ponto onde o barulho dos canhões e dos mosquetões já pode ser ouvido. Colunas de fumaça se erguem e a correria das tropas é enorme. Nas enfermarias improvisadas em barracas, se empilham os feridos. Os mortos são enterrados ainda no cenário das batalhas.
Os dias e as semanas se passam e os entreveros se tornam cada vez mais sangrentos. Ao tentar ganhar uma posição mais próxima da linha inimiga, nosso personagem é atingido por uma bala na altura do peito.
A dor é implacável e o sangue jorra sem cessar. Socorrido por seus companheiros, é arrastado de volta para a trincheira. Em meio ao delírio que já se faz presente, ele chama pela amada. Pronuncia seu nome, a princípio em voz baixa, depois aos gritos na esperança de ser ouvido por ela. Ansiosos por conter a hemorragia e sem um médico por perto, a única coisa que encontram no bolso do ferido é o lenço oferecido pela bela donzela, ainda levemente perfumado. Sem outra opção, se utilizam dele para tentar estancar o sangue que brota da ferida aberta no peito. Não adiantou. Alguns minutos depois, nosso jovem soldado morre. Mas como prometera, manteve junto do coração o lenço perfumado e o nome da amada nos lábios.
A promessa fora cumprida.
Era costume a moça deixar cair ou atirar o seu lenço em direção ao pretendido, a fim de chamar sua atenção e dar início a um namoro. Os encontros eram marcados por reverências de ambas as partes. As moças abaixavam suavemente o corpo, deixando encostar no chão os longos e belos vestidos rodados. Já os rapazes, inclinavam a cabeça e tiravam o chapéu, em um sinal de respeito e admiração pela beleza das jovens donzelas.
Um belo dia, o país entrou em guerra. Além do exército normal, foram convocados todos os jovens em idade de serviço militar para defender as fronteiras do país nas trincheiras encravadas nas pradarias do norte. Exército enfileirado e soldados equipados, começa o desfile das tropas em direção ao porto para o embarque no navio que os conduziria à frente de batalha. Uniformes impecáveis, mochila e bolsas com pólvora e balas de chumbo transformavam aqueles jovens em soldados prontos para a guerra. Ao ombro, levavam os longos e reluzentes mosquetões guarnecidos por uma longa baioneta. Estavam prontos para a batalha. A multidão, enfileirada ao longo das ruas que conduzem ao porto, promove um festivo ato de apoio, saudando os bravos soldados que irão defendê-los, fazendo frente aos inimigos.
Ao passar por sua amada, que entre lágrimas e sorrisos o aguarda, o jovem soldado a fita nos olhos, na esperança de ouvir alguma coisa que lhe dê forças para a jornada. Ela, em um gesto rápido, lhe atira o lenço perfumado e grita que o ama. Ele, entre um misto de atônito e feliz, grita a plenos pulmões que assim como o lenço, ela estará sempre junto de seu coração.
O navio, movido por longas e altas velas, se afasta e só deixa os soldados alguns dias depois em um ponto onde o barulho dos canhões e dos mosquetões já pode ser ouvido. Colunas de fumaça se erguem e a correria das tropas é enorme. Nas enfermarias improvisadas em barracas, se empilham os feridos. Os mortos são enterrados ainda no cenário das batalhas.
Os dias e as semanas se passam e os entreveros se tornam cada vez mais sangrentos. Ao tentar ganhar uma posição mais próxima da linha inimiga, nosso personagem é atingido por uma bala na altura do peito.
A dor é implacável e o sangue jorra sem cessar. Socorrido por seus companheiros, é arrastado de volta para a trincheira. Em meio ao delírio que já se faz presente, ele chama pela amada. Pronuncia seu nome, a princípio em voz baixa, depois aos gritos na esperança de ser ouvido por ela. Ansiosos por conter a hemorragia e sem um médico por perto, a única coisa que encontram no bolso do ferido é o lenço oferecido pela bela donzela, ainda levemente perfumado. Sem outra opção, se utilizam dele para tentar estancar o sangue que brota da ferida aberta no peito. Não adiantou. Alguns minutos depois, nosso jovem soldado morre. Mas como prometera, manteve junto do coração o lenço perfumado e o nome da amada nos lábios.
A promessa fora cumprida.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
O escritor e as duas mulheres
Em meio a ainda tênue luz do amanhecer que entrava pela janela, ele via sua própria imagem refletida no espelho. Hoje, parecia que cada fio de cabelo branco lembrava uma história vivida, assim como cada ruga profundamente esculpida em seu rosto refletia uma emoção sentida. Aquela tinha sido uma noite difícil. O sono estivera leve, os pensamentos voaram distantes e, no peito, um estranho aperto.
Dormira, como sempre fez, ao lado daquela mulher que o acompanhara ao longo da vida e que lhe dera os dois filhos. Estes filhos, já com suas vidas aprumadas e com suas próprias histórias já sendo traçadas longe dos olhos paternos. Foi até a janela de onde estava acostumado a observar as ondas do mar que, insistentemente a cada novo dia, vinham lhe cumprimentar.
Por vezes ele nem queria, mas ali estavam elas, se mostrando, se impondo sobre a areia branca, fazendo o seu ruído característico. Será que, pelo menos hoje, elas não poderiam silenciar? Ele precisava colocar os pensamentos em ordem, as idéias em linha, arrumadas, enfileiradas, para que depois as pudesse repensar, uma a uma.
Estranho, aquela manhã não parecia ser igual a tantas e tantas outras já vivenciadas, aproveitadas, amaldiçoadas. Os olhos vermelhos, conseqüência da noite mal dormida eram uma evidência de que algo não ía bem.
Aproximou-se da velha máquina de escrever sobre a escrivaninha repleta de folhas em branco, algumas parcialmente escritas e ainda outras amassadas, rasgadas e rabiscadas.
Sim, fora dalí, em meio ao constante amontoado de papéis em sua mais ordenada desordem onde haviam sido gestados e expulsos para o mundo todos os seus livros.
Seus livros ao longo de infindáveis anos foram como arautos, mensageiros, que anunciavam em alto e bom tom de tinta preta sobre as páginas brancas, as suas ideias, suas crenças, suas falhas, suas descrenças e até mesmo suas esperanças. Em épocas de guerra, seus livros haviam servido tanto de lenitivo para os soldados nas trincheiras, como fábrica de idéias e argumentos aos líderes do país, únicos a quem as batalhas travadas e o sangue derramado de seus compatriotas serviam para alguma coisa, mesmo que apenas para mostrar poder e força.
Em outras épocas, seus romances embalaram os sonhos de amor e as vidas de toda uma geração de enamorados e apaixonados daquelas terras.
Em períodos de depressão, de crises econômicas, o povo arrancava forças para a penosa sobrevivência nas palavras retiradas das páginas de suas comédias e histórias jocosas.
Sem falsa modéstia, os seus contos, dramas, comédias e artigos políticos impregnados naqueles livros haviam ajudado a construir a mente daquele povo e o enchido de força pessoal, moral e cívica. Por que então, ainda assim havia no ar aquela estranha sensação que a vida não havia valido totalmente a pena ter sido vivida?
O motivo não estava lá fora, nem no mundo próximo, nem no além mar, mas sim dentro de seus próprios domínios: sua casa e principalmente sua mente.
Havia algo que ele e apenas ele, sabia, conhecia e não dividira com ninguém até a data de hoje. O seu coração estivera dividido entre duas mulheres a vida toda, a miserável vida inteira! Desde que se conhecia por gente, as duas estiveram alí, na vizinhança, na mesma rua. Entraram na escola juntos, os três! Aprenderam as primeiras letras na mesma sala de aula. Nos finais de semana, os dias de brincadeiras na rua de terra com as outras crianças terminavam ao lado delas, sentados à sombra de uma árvore, ou na beira do rio contando histórias e rindo muito, de tudo. Os primeiros beijos dos três foram compartilhados, porém sem que uma soubesse da experiência vivida por ele com a outra. Tudo acontecia em um processo natural, sem maldade ou malícia, em um contínuo ato de amadurecimento. Assim, a infância passou, veio a adolescência e a juventude. Aquele trio ria, convivia, passeava e passava a vida partilhando tudo como verdadeiros cumplices. Compartilhavam experiências, carinhos, carícias, ora formando um casal, ora outro.
Com o tempo, ele percebia que as duas estavam crescendo, tomavam formas diferentes, criavam curvas insinuantes, formas de mulher! Como eram bonitas! Aliás, estavam ficando lindas!
A medida que seus olhos sentiam a necessidade de admirar a ambas, seu coração foi se apaixonando, e o pior: pelas duas! Ingrato coração! Indeciso coração!
A dúvida e a paixão estavam presentes e juntas! Ele jamais havia conseguido se decidir, se definir, escolher entre a bela ruiva e a esplendorosa loira que dividiam com ele as salas de aula, os concertos de piano, os jantares, as festas e os bailes. Em uma valsa ele percorria o salão com uma nos braços e na música seguinte era com a outra que ele flutuava.
Os anos foram passando, a vida andava a passos largos e, um dia, ele não sabe porque, decidira pedir a mão da bela ruiva em casamento.
No dia, se sentira resoluto, com toda a certeza deste mundo. Malvado mundo! A medida que o tempo passava, vieram os filhos, um após o outro.
A vida doméstica era boa, mas sempre que a amiga loira passava pela rua, o seu olhar insistia em se desviar para conferir aqueles passos, para ver aqueles cabelos, aqueles quadris e observar a sua bela silhueta. Quando encontrava a amiga nas ruas, no armazem ou na praça, as conversas eram muito animadas. Riam de tudo, os olhares insistiam em se encontrar e as bocas não deixavam de se encarar de maneira quase explícita.
Como a vila era pequena, todas as portas, janelas, ruas e vielas tinham olhos, ouvidos e bocas. Muitas bocas! Então, ele se recolhia para junto da máquina de escrever e dava vazão aos sentimentos que já não podia externar pessoalmente àquela criatura tão querida, tão amada. Quantos romances saíram dali, em situações como esta. Eram vários. Eram muitos. E assim o tempo passava, as marés subiam, baixavam, os dias eram substituidos pelas noites e a vida seguia o seu ritmo, um penoso ritmo.
A ideia de, ao mesmo tempo dividir a sua vida em duas, mesmo que fosse só no seu íntimo, o angustiava, o perturbava. Abriu os olhos e se viu novamente na frente do espelho. Agora, as lágrimas já lhe molhavam a face e as pernas insistiam em se dobrar até o deixar de joelhos, como quem pede perdão pelas faltas, pelos pecados e pelos sacrilégios cometidos durante a existência. Num instante, seus olhos parecem querer saltar das órbitas e um grito sufocado acompanha a forte e aguda dor que irrompe no peito. Era como se o seu indeciso coração finalmente tivesse resolvido tomar alguma decisão; a decisão de pular para fora do peito. Mas, precisava doer tanto? Era quase insuportável! A visão começa a ficar turva e o raciocínio começa a ficar lerdo, fraco, impreciso. Ele sente que as forças o estão abandonando, deixando-o indefeso diante da própria sorte e da própria morte. Sim, ele estava sentindo a presença daquela que só ouvira falar ou só citara em seus textos: a morte!
Tentando chamar por alguém, a voz lhe falta, falha, some, o abandona. Agora, já se vê deitado no chão totalmente entregue e com o olhar fixo no teto. Em instantes, a visão antes turva, se apaga por completo e ele só sente a escuridão. Estranha e fria escuridão que agora o abraça como se fosse uma mortalha. Mas, por algum motivo a dor desaparecera, e isto era bom, muito bom. Aos poucos, sua visão clareia novamente e ele consegue ver aquele corpo de homem, deitado, em repouso no chão. Mas como? Era ele que jazia no chão da sala então já invadida pelos raios de sol da manhã. No mesmo instante, a verdade se descortinou: tinha sido apanhado pela morte, estava indo para uma outra vida, estava a espera de outra sorte.
Pouco a pouco, viu que as pessoas em pânico corriam e se aproximaram de seu corpo, lavando-o com copiosas lágrimas. Ele, porém, estranhamente se sentia bem, aliás muito bem. Passada uma hora, a sala já estava repleta de gente. Amigos, conhecidos, e ali, juntas, lado a lado, os dois amores de sua vida. Para sua alegria, neste instante as duas choravam juntas, abraçadas. Era uma estranha alegria. Começava a perceber que havia sido necessária a sua morte para unir em vida, as duas criaturas amadas. Finalmente, após uma vida inteira ele estava alí, junto das duas mulheres de sua existência terrena em perfeita harmonia, em completa união.
O estranho é que agora, e apenas agora, ele podia estar ao lado de quem quisesse, na hora que bem entendesse. Podia admirar aquelas mulheres que foram a sua vida e que fizeram a sua vida ter valido verdadeiramente a pena ter sido vivida. Ele estava aliviado, se sentia leve. Sua alma estava em paz.
Após quase não terem mais lágrimas para derramar, as duas amadas criaturas se aproximaram da velha máquina de escrever, na esperança de achar ali algo que mantivesse por mais um tempo a sensação de tê-lo por perto. Era como se estivessem a procura de um epitáfio, de uma herança, de um testamento. Eis que, entre uma mistura de sorrisos e choro, elas encontraram o que procuravam. Ali, incrustrada na antiga máquina, estava uma folha datilografada pela metade. Ao mesmo tempo em que um calafrio descia por suas espinhas, dois sorrisos se abriram ao lerem as curtas linhas construidas em tipos pretos e firmemente marcados no papel.
Lá, dizia:
O escritor e as duas mulheres
O velho escritor levara uma vida dividida
Amara muito
Muito em intensidade
Muito em quantidade
Em seu coração, duas metades
Em sua vida, dois caminhos
Em seu pensamento, duas mulheres
Convivia com uma
Vivia para a outra
Casara com uma
Amara também a outra
Nas manhãs da mente, lia o jornal com uma
Nas tardes da vida, declarava-se para a outra
No resto do dia, escrevia inspirado nas musas
Já tarde da noite, quando a luz se apagava
Sua imaginação brilhava
Sua saudade acendia
Sua alma ascendia...
Com uma, tinha filhos
Com a outra, tinha sonhos
Que a outra se tornasse a uma
Que suas almas se tornassem única
Que suas histórias se tornassem una
Que suas almas voassem livres
No frescor da brisa
Sobre as águas calmas
No brilhar da lua
Pela madrugada...
Um dia
O livro fechou
A cortina desceu
A morte chegou
Enquanto outros choravam
Seu espírito feliz, gargalhou
Estava livre para ir
Estava seguro para decidir
Qual o caminho a seguir
Ao lado de quem, descansar...
Era a indicação clara, precisa e escrita que aquela união, que não era apenas carnal, que aquele amor a três, permaneceria vivo através dos tempos, neste e no outro mundo. Quem conviveu, viu! Quem viver, verá! Quem morrer, comprovará!
Dormira, como sempre fez, ao lado daquela mulher que o acompanhara ao longo da vida e que lhe dera os dois filhos. Estes filhos, já com suas vidas aprumadas e com suas próprias histórias já sendo traçadas longe dos olhos paternos. Foi até a janela de onde estava acostumado a observar as ondas do mar que, insistentemente a cada novo dia, vinham lhe cumprimentar.
Por vezes ele nem queria, mas ali estavam elas, se mostrando, se impondo sobre a areia branca, fazendo o seu ruído característico. Será que, pelo menos hoje, elas não poderiam silenciar? Ele precisava colocar os pensamentos em ordem, as idéias em linha, arrumadas, enfileiradas, para que depois as pudesse repensar, uma a uma.
Estranho, aquela manhã não parecia ser igual a tantas e tantas outras já vivenciadas, aproveitadas, amaldiçoadas. Os olhos vermelhos, conseqüência da noite mal dormida eram uma evidência de que algo não ía bem.
Aproximou-se da velha máquina de escrever sobre a escrivaninha repleta de folhas em branco, algumas parcialmente escritas e ainda outras amassadas, rasgadas e rabiscadas.
Sim, fora dalí, em meio ao constante amontoado de papéis em sua mais ordenada desordem onde haviam sido gestados e expulsos para o mundo todos os seus livros.
Seus livros ao longo de infindáveis anos foram como arautos, mensageiros, que anunciavam em alto e bom tom de tinta preta sobre as páginas brancas, as suas ideias, suas crenças, suas falhas, suas descrenças e até mesmo suas esperanças. Em épocas de guerra, seus livros haviam servido tanto de lenitivo para os soldados nas trincheiras, como fábrica de idéias e argumentos aos líderes do país, únicos a quem as batalhas travadas e o sangue derramado de seus compatriotas serviam para alguma coisa, mesmo que apenas para mostrar poder e força.
Em outras épocas, seus romances embalaram os sonhos de amor e as vidas de toda uma geração de enamorados e apaixonados daquelas terras.
Em períodos de depressão, de crises econômicas, o povo arrancava forças para a penosa sobrevivência nas palavras retiradas das páginas de suas comédias e histórias jocosas.
Sem falsa modéstia, os seus contos, dramas, comédias e artigos políticos impregnados naqueles livros haviam ajudado a construir a mente daquele povo e o enchido de força pessoal, moral e cívica. Por que então, ainda assim havia no ar aquela estranha sensação que a vida não havia valido totalmente a pena ter sido vivida?
O motivo não estava lá fora, nem no mundo próximo, nem no além mar, mas sim dentro de seus próprios domínios: sua casa e principalmente sua mente.
Havia algo que ele e apenas ele, sabia, conhecia e não dividira com ninguém até a data de hoje. O seu coração estivera dividido entre duas mulheres a vida toda, a miserável vida inteira! Desde que se conhecia por gente, as duas estiveram alí, na vizinhança, na mesma rua. Entraram na escola juntos, os três! Aprenderam as primeiras letras na mesma sala de aula. Nos finais de semana, os dias de brincadeiras na rua de terra com as outras crianças terminavam ao lado delas, sentados à sombra de uma árvore, ou na beira do rio contando histórias e rindo muito, de tudo. Os primeiros beijos dos três foram compartilhados, porém sem que uma soubesse da experiência vivida por ele com a outra. Tudo acontecia em um processo natural, sem maldade ou malícia, em um contínuo ato de amadurecimento. Assim, a infância passou, veio a adolescência e a juventude. Aquele trio ria, convivia, passeava e passava a vida partilhando tudo como verdadeiros cumplices. Compartilhavam experiências, carinhos, carícias, ora formando um casal, ora outro.
Com o tempo, ele percebia que as duas estavam crescendo, tomavam formas diferentes, criavam curvas insinuantes, formas de mulher! Como eram bonitas! Aliás, estavam ficando lindas!
A medida que seus olhos sentiam a necessidade de admirar a ambas, seu coração foi se apaixonando, e o pior: pelas duas! Ingrato coração! Indeciso coração!
A dúvida e a paixão estavam presentes e juntas! Ele jamais havia conseguido se decidir, se definir, escolher entre a bela ruiva e a esplendorosa loira que dividiam com ele as salas de aula, os concertos de piano, os jantares, as festas e os bailes. Em uma valsa ele percorria o salão com uma nos braços e na música seguinte era com a outra que ele flutuava.
Os anos foram passando, a vida andava a passos largos e, um dia, ele não sabe porque, decidira pedir a mão da bela ruiva em casamento.
No dia, se sentira resoluto, com toda a certeza deste mundo. Malvado mundo! A medida que o tempo passava, vieram os filhos, um após o outro.
A vida doméstica era boa, mas sempre que a amiga loira passava pela rua, o seu olhar insistia em se desviar para conferir aqueles passos, para ver aqueles cabelos, aqueles quadris e observar a sua bela silhueta. Quando encontrava a amiga nas ruas, no armazem ou na praça, as conversas eram muito animadas. Riam de tudo, os olhares insistiam em se encontrar e as bocas não deixavam de se encarar de maneira quase explícita.
Como a vila era pequena, todas as portas, janelas, ruas e vielas tinham olhos, ouvidos e bocas. Muitas bocas! Então, ele se recolhia para junto da máquina de escrever e dava vazão aos sentimentos que já não podia externar pessoalmente àquela criatura tão querida, tão amada. Quantos romances saíram dali, em situações como esta. Eram vários. Eram muitos. E assim o tempo passava, as marés subiam, baixavam, os dias eram substituidos pelas noites e a vida seguia o seu ritmo, um penoso ritmo.
A ideia de, ao mesmo tempo dividir a sua vida em duas, mesmo que fosse só no seu íntimo, o angustiava, o perturbava. Abriu os olhos e se viu novamente na frente do espelho. Agora, as lágrimas já lhe molhavam a face e as pernas insistiam em se dobrar até o deixar de joelhos, como quem pede perdão pelas faltas, pelos pecados e pelos sacrilégios cometidos durante a existência. Num instante, seus olhos parecem querer saltar das órbitas e um grito sufocado acompanha a forte e aguda dor que irrompe no peito. Era como se o seu indeciso coração finalmente tivesse resolvido tomar alguma decisão; a decisão de pular para fora do peito. Mas, precisava doer tanto? Era quase insuportável! A visão começa a ficar turva e o raciocínio começa a ficar lerdo, fraco, impreciso. Ele sente que as forças o estão abandonando, deixando-o indefeso diante da própria sorte e da própria morte. Sim, ele estava sentindo a presença daquela que só ouvira falar ou só citara em seus textos: a morte!
Tentando chamar por alguém, a voz lhe falta, falha, some, o abandona. Agora, já se vê deitado no chão totalmente entregue e com o olhar fixo no teto. Em instantes, a visão antes turva, se apaga por completo e ele só sente a escuridão. Estranha e fria escuridão que agora o abraça como se fosse uma mortalha. Mas, por algum motivo a dor desaparecera, e isto era bom, muito bom. Aos poucos, sua visão clareia novamente e ele consegue ver aquele corpo de homem, deitado, em repouso no chão. Mas como? Era ele que jazia no chão da sala então já invadida pelos raios de sol da manhã. No mesmo instante, a verdade se descortinou: tinha sido apanhado pela morte, estava indo para uma outra vida, estava a espera de outra sorte.
Pouco a pouco, viu que as pessoas em pânico corriam e se aproximaram de seu corpo, lavando-o com copiosas lágrimas. Ele, porém, estranhamente se sentia bem, aliás muito bem. Passada uma hora, a sala já estava repleta de gente. Amigos, conhecidos, e ali, juntas, lado a lado, os dois amores de sua vida. Para sua alegria, neste instante as duas choravam juntas, abraçadas. Era uma estranha alegria. Começava a perceber que havia sido necessária a sua morte para unir em vida, as duas criaturas amadas. Finalmente, após uma vida inteira ele estava alí, junto das duas mulheres de sua existência terrena em perfeita harmonia, em completa união.
O estranho é que agora, e apenas agora, ele podia estar ao lado de quem quisesse, na hora que bem entendesse. Podia admirar aquelas mulheres que foram a sua vida e que fizeram a sua vida ter valido verdadeiramente a pena ter sido vivida. Ele estava aliviado, se sentia leve. Sua alma estava em paz.
Após quase não terem mais lágrimas para derramar, as duas amadas criaturas se aproximaram da velha máquina de escrever, na esperança de achar ali algo que mantivesse por mais um tempo a sensação de tê-lo por perto. Era como se estivessem a procura de um epitáfio, de uma herança, de um testamento. Eis que, entre uma mistura de sorrisos e choro, elas encontraram o que procuravam. Ali, incrustrada na antiga máquina, estava uma folha datilografada pela metade. Ao mesmo tempo em que um calafrio descia por suas espinhas, dois sorrisos se abriram ao lerem as curtas linhas construidas em tipos pretos e firmemente marcados no papel.
Lá, dizia:
O escritor e as duas mulheres
O velho escritor levara uma vida dividida
Amara muito
Muito em intensidade
Muito em quantidade
Em seu coração, duas metades
Em sua vida, dois caminhos
Em seu pensamento, duas mulheres
Convivia com uma
Vivia para a outra
Casara com uma
Amara também a outra
Nas manhãs da mente, lia o jornal com uma
Nas tardes da vida, declarava-se para a outra
No resto do dia, escrevia inspirado nas musas
Já tarde da noite, quando a luz se apagava
Sua imaginação brilhava
Sua saudade acendia
Sua alma ascendia...
Com uma, tinha filhos
Com a outra, tinha sonhos
Que a outra se tornasse a uma
Que suas almas se tornassem única
Que suas histórias se tornassem una
Que suas almas voassem livres
No frescor da brisa
Sobre as águas calmas
No brilhar da lua
Pela madrugada...
Um dia
O livro fechou
A cortina desceu
A morte chegou
Enquanto outros choravam
Seu espírito feliz, gargalhou
Estava livre para ir
Estava seguro para decidir
Qual o caminho a seguir
Ao lado de quem, descansar...
Era a indicação clara, precisa e escrita que aquela união, que não era apenas carnal, que aquele amor a três, permaneceria vivo através dos tempos, neste e no outro mundo. Quem conviveu, viu! Quem viver, verá! Quem morrer, comprovará!
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Remédio amargo
As vezes, sentimos que a vida nos leva de arrasto, nos jogando e empurrando de qualquer maneira, independente de nossa vontade. Corre-se desordenadamente para cumprir compromissos, para respeitar prazos, para ser simpático com todos, para ser bem visto, para ser responsável com tudo. A sensação de sufoco é constante e crescente. Por mais que se queira ser bom cidadão, bom pai, bom namorado, bom marido, bom amigo, se torna difícil. A sensação de impotência é grande e a confusão de sensações e sentimentos, também. Existem situações em que, para que a ferida cicatrize mais rápido, é necessário que se corte a carne ao seu redor. Tem vezes, que para que a dor desapareça logo, o remédio mais indicado é o mais amargo. E, em outras ocasiões, devemos nos afastar de quem amamos para avaliar o que estamos fazendo com as suas vidas e o que podemos fazer para ficarmos mais próximos, de uma forma mais leal, mais verdadeira. As vezes, é preciso que se tire os móveis de casa para que, se a decisão for voltar, ela se torne mais limpa, agradável e bonita. Eu nunca fui favorável a distâncias, separações, saudades, mas existem ocasiões em que este é o melhor remédio, embora amargo, ruim, dolorido. Se a flor de nosso vaso está sendo sufocada pelas ervas daninhas, talvez seja melhor arrancá-la juntamente com as ervas, para depois replantá-la em uma terra limpa e fecunda, onde ela sem dúvidas, crescerá forte e bonita. O vaso será o mesmo, a flor será a mesma, mas a terra será limpa e arejada. A flor estará melhor. Na maioria das vezes, essas atitudes não são bem vistas, nem bem compreendidas. Cheiram a abandono, a pouco caso, a descaso, a sacanagem. Mas, tenho certeza que o remédio amargo, o corte na carne, a distância e a saudade podem, em muitos casos, tornar tudo melhor. Mas para que isso aconteça, basta a vontade verdadeira de querer mudar, de querer recomeçar de uma forma mais verdadeira. Depende da decisão de cada um. Eu, estou tomando pela primeira vez na vida, o remédio amargo. É ruim, na verdade é horrível, mas resolverá! Tenho fé. O que vier depois, independente do que seja, certamente será muito melhor!
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Cenas
Nos dias de folga e nas noites de insônia, a vida passa pela minha mente devagar, quadro a quadro. As lembranças vêm a vão. Cenas são relembradas e revividas. É como se fosse uma releitura dos fatos acontecidos. Esse exercício serve para analisar tudo o que se passou e as coisas que se fez ao longo da existência. As boas e más lembranças retornam como se fossem filmes. Alguns, eu até gostaria de assistir novamente, já em sua pré-estréia. Já alguns outros, teria sido melhor se eu tivesse perdido o ingresso naquele dia e nunca os ter vivenciado. Boas e más lembranças, pessoas que alegraram ou entristeceram os meus dias, e situações das quais nem que tivesse vontade, não teria mesmo conseguido fugir. Tudo é relembrado, tudo é revivido, tudo é repensado. Acho que esta releitura da vida é interessante. Com ela, analisamos os nossos atos passados, suas influências em nossa vida e, principalmente, na vida dos outros. Assim também, nos é aberta uma possibilidade de não voltar a repetir os erros e as falhas de outrora e nos é oferecida a chance de fazer diferente da próxima vez. Eu gosto desses “exames de consciência”. Apesar de todas as nossas falhas, naturais de seres humanos, e também das recordações dos nossos acertos, temos assim uma oportunidade de mudar alguma coisa no rumo do que ainda resta de nossas vidas.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Até quando?
A música que ouço é sempre a mesma. Uma, duas, cem vezes. Todos reclamam, menos os meus ouvidos. A hora de partir está próxima e a tristeza já se faz presente. Presente indesejado, preferível se fosse passado. Mas, por mais força que eu faça, o passado é cada vez mais presente. Contra-senso, ou falta de hábito com a realidade? Será que tudo deveria mesmo ser assim? As imagens teriam que estar tão vivas na memória? Se são só memórias, não teriam que ser mais vagas? Mas, ao contrário, são vagalhões que varrem da cabeça a razão. E quem não tem razão, jamais terá razão. Parece lógico, não? A resposta é não! Sei que vou, mas deixo o rastro. Me arrasto para deixar de lado, nem que seja um pouco, a tristeza, a falta de alegria. Até quando essa sina? Até quando essa melancolia? Talvez no final da vida acabe, talvez em uma noite como esta, talvez um dia...
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
É a vida...
Decida! De prefreência, agora, já! Ou se é alegre ou se é triste. Ficar aí, parado, calado, nessa indecisão, é coisa que a nada leva, é coisa que nada traz, nada vale, não existe. A vida pode ser boa, pode ser alegre, pode ser dura ou também pode ser triste. Ou se é pão ou se é faca. Quem corta quem? Quem machuca? Quem cutuca? Quem ofende? Quem resiste? Por que as coisas são tão difíceis, tão constantes, tão previsíveis? A prata é curta, a vida é longa, o choro é contido e a mágoa é fiel companhia. É o filho que chora, é o chefe que briga, é o partido que escolhe, é a chaleira que chia. A mãe é forte, a avó é boa, a filha sonha com as nuvens e nelas passeia, revoa. O que deveria ser alegre, não o é. O que se espera da tristeza, sempre é forte, sempre é firme, sempre é garantido, sempre está de pé. Será que a vida é mesmo assim? Ou somos nós os enganados, os inocentes, os desenganados? Muito se espera, pouco se dá, bastante se ouve, muito se pensa, pouco acontecerá. Tudo é certo, tudo se sabe, tudo se vê, nada se livra, tudo terminará em lágrima, tudo se prevê. Deveríamos estar acostumados? Poderíamos ficar desanimados, inquietos, mais desesperados? A saudade é presente, o amor é distante, o sentimento é doído, é letal, é diferente. Saudade? Presente? Presente de quem? Por que? Na chegada ou na partida? Só pode ser dela, da madrasta, da malvada, da carrasca, da vida.
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