segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Lourenstock - A história vista de dentro - Parte 3


"4.8 DO JURI


Mas nem tudo era brincadeira, havia varias e boas bandas, víamos pelos equipamentos e, pelo “jeitão” da galera, a coisa ia ser seria. Ah, sim, havia o júri! Lembro de uma fileira de mesas com toalhas brancas com vasos de flores e por perto alguns bem vestidos jurados que a julgar pela aparência, apesar dos sorrisos, tinham todo jeitão de conhecer musica e certamente não estariam ali para brincar.

4.9 DAS BANDAS


De imediato travamos amizade com a galera das outras bandas. Pelo tempo, consigo lembrar de ter conhecido um pessoal de Camaquã e outro grupo de Pelotas. Infelizmente apos estes 40 anos não lembro o nome destas duas bandas. (Se alguém listar alguns nomes eu conseguiria reconhecer). Havia uma banda de Porto Alegre, de um velho amigo nosso, o Carmelo, que chama-se “Dominus Arrotominus Pepsicolorum” era um “Power-trio” tocavam maravilhosamente o Blues psicodélico de Hendrix. Quando a gente soube do festival, nos contatamos eles para irem também, pois eram ótimos músicos e grandes amigos.
Mas haviam varias outras bandas, porisso o tempo era regulado e todos tinham que ser rápidos nas trocas de equipamentos.


O Festival iniciou e a galera era muito animada. Não lembramos como foi o processo do schedule, mas lembro que alguém da organização me perguntar se não nos importávamos em ser a ultima banda, uma vez que ninguém queria ou poderia fazer o fechamento. Eu lembro de ter respondido tipo, se ele garantia que o todo aquele pessoal iria estar ali ainda no final, a gente faria...e o carinha falou que não me preocupasse que aquele galera iria amanhecer no pedaço....


Não sei se foi uma boa escolha, pois a cada nova banda aumentava o frio na nossa barriga só passava com conhaque...Estávamos tensos, o som não era bom, ao ar livre você tem que ter potencia e qualidade de alto-falantes. O problema era o vento, que batia no local e que “distorcia” o sentido do som, isso e terrível, detona toda a performance. E pelo jeito aquele vento iria aumentar a medida que a noite andasse. Tudo bem que prejudicava todo mundo por igual, mas nos não queríamos nem podíamos ser prejudicados, afinal era nossa noite!


Foi então que tive um sopro de lucidez, acho que dado pelo conhaque. Nos havíamos trazido uma lona grande para o caso de chuva na estrada, pois parte do equipamento vinha em cima da Kombi e a gente usou a lona para proteger. Perguntei ao motorista qual o tamanho da lona e ele falou que era uma lona de caminhão, do tipo encerado, pesada... Então eu falei pra galera que estava cuidando do equipamento, pegar a lona e conversar com o pessoal da organização que a gente precisava de alguma escada pra pendurar aquela lona atrás do palco. A ideia era evitar a ação do vento forte e criar uma parede que servisse como anteparo aos amplificadores. Isso era lá na minha cabeça, se daria certo ou não, só iriamos saber na hora...


Que finalmente chegou. A galera já devidamente animada pelo clima dado pelas bandas anteriores e nos devidamente animados pela cerveja e conhaque. A lona subiu rápido por detrás da aparelhagem (eu acho que havia uma tela ou algo assim, que o pessoal subiu e pendurou a lona...) e a gente começou.


Nosso repertorio tinha sido escolhido pra usar o que tínhamos de mais forte, que era a percussão, com duas baterias e duas tumbadoras, porisso acreditávamos que o rock latino a la “Santana” cairia bem, pois já havíamos nos saído bem em outros recentes eventos. Lembro que o pessoal de Camaquã fez um som muito legal, tocaram, se não me engano Alice Cooper, o pessoal de Porto Alegre já havia dado seu show nos solos de Hendrix e nos fizemos o que sabíamos.


Já nas primeiras batidas de BATUKA, que era nossa abertura, sentimos um sinal de aprovação do publico e era o que precisávamos, imediatamente o frio da barriga foi embora. A gente tinha ensaiado uns climas de passagem entre uma musica e outra e isso, com o efeito das luzes, dava mesmo um toque diferente ao visual e ao emocional. Lembro de ter olhado ao júri, a minha esquerda e senti sorrisos, mostrando que estávamos no caminho certo. Meu pai sempre falou: Faz o que tu sabes. Se não o sabes então apreenda antes! Ao mesmo tempo lembrei das palavras do Prefeito, sobre o caneco. Estávamos indo bem, a galera estava fazendo a sua parte e aplaudia direitinho, o esquema da lona estava funcionando, o som estava bom, “cacete, agente iria mesmo pras cabeças”!!!


Lembro que ao final o pessoal pediu mais uma e a gente havia guardado a levada “Soul Sacrifice” de Carlos Santana, versão Woodstock. Iriamos toca-la de qualquer forma, mas já havíamos combinado que, se o publico estivesse gostando, terminávamos e aguardávamos algum pedido de bis. Caso o publico tivesse meio “xoxo” a gente tocava direto sem fazer o break. Aquela estava sendo uma noite especial, deveria ser uma noite de BIS e assim o foi, mandamos ver no Soul Sacrifice com um solo de 5 minutos das duas baterias, primeiro cada uma em separado e depois as duas juntas fazendo as mesmas batidas, foi o clímax, era a nossa noite. Fomos aplaudidos também pelos Srs. Jurados e lembro que a gente chorou de emoção..


Ah sim, aos agradecimentos lembrei de falar as palavras do Prefeito!


Não tenho boa lembrança sobre a premiação. Me parece que havia algum valor em dinheiro, mas não lembro se havia troféu, mas tenho varias caixas la no sótão com material de musica. Sei que existem troféus lá de outros festivais, só não tenho certeza sobre o Lourenstock.


Passamos o resto da noite com a galera Lourenciana e demais músicos, Bebemos todas, trocamos telefones, endereços, abraços e beijocas com as lindas prendas da beira da Lagoa.


Devido ao Festival, ganhamos um contrato para tocar o Baile da Rainha da Lagoa dos Patos em Camaquã, algum tempo depois. Não tenho certeza se isso fazia parte da premiação ou se alguém da promoção do Baile estava la no Festival e gostou da banda...


Tocamos o Baile, uma linda festa, no clube de Camaquense, fomos muito bem recebidos e bem pagos. Lembro que para assinar o contrato para o Baile, eu e Adroaldo fomos ate Camaquã. Naquela época a gente costumava pegar carona na estrada. Pegamos carona num velho caminhão Alfa-Romeu, de um senhor italiano, de São Marcos-RS, gente boa, fomos conversando o caminho todo. Aquele senhor gostou da gente e nos conseguiu um baile e uma domingueira num clube em São Marcos...Ou seja o Lourenstock, além da prazerosa alegria, nos rendeu indiretamente uma boa grana.


Finalizando, foi o coroamento de um trabalho, o resultado da perseverança, mostrando que quando você põe sua alma a serviço de algo construtivo e trabalha duro pra conseguir, realmente as forcas do universo te auxiliam. Éramos muito jovens, mas esse tipo de acontecimento grava pra sempre em nossa memoria, alma e caráter. Talvez falte ao jovem de hoje perceber essa “sacada” e trabalhar duro em prol de seus sonhos, acredite e eles se tornam realidade


A Banda “A CASCA da LARANJA” ainda continuou por mais uns dois anos e se desfez la pelos idos de 1974. Seus integrantes, embora tenham seguido outras carreiras continuaram tocando em paralelo a outras atividades.


Claudio Machado – baterista, continuou tocando vários anos com a banda de bailes Flor da Serra e outras bandas e hoje possui sua própria banda “Festa de Arromba Show”, voltada a bailes e jantares em clubes.


Luiz Ewerling (Tony) – emigrou para os Estados Unidos, la continuou com a carreira de baterista e estabeleceu-se em Chicago. Tocou com grandes nomes do Blues de Chicago e hoje, além de musico de estúdio, toca na noite e em eventos e eh compositor: HYPERLINK "http://www.myspace.com/acordobrasil"  

http://www.myspace.com/acordobrasil


Fausto Rosa – grande guitarrista, contrabaixista e’ professor de musica.


Jones Machado – trocou a guitarra pelos teclados, tocou em varias bandas no sul, Conjunto os Magnatas, Musical San Sebastian, Conjunto Aspecto, Banda Flor da Serra, Musical Pepe Show. Hoje tem sua banda de Blues em Brasília, a Paralello Blues (vide site no Facebook) onde toca piano e órgão Hammond.


Reni Xavier – comerciante calçadista e continua tocando


Cicero Holleben e Adroaldo Belmonte tocaram em algumas bandas na região e já mais tarde infelizmente vieram a falecer. A eles dedicamos em grande parte esta singela reminiscência.


Nosso Muito Obrigado a todos que participaram daquele maravilhoso evento, do qual não tivemos mais noticias se teve continuidade ou não: o Festival Lourenstock!


PS. Em 01 de outubro de 2011 meu irmão Claudio, organizando suas fotografias, documentos e outros papeis, deparou com uma folha de papel contendo um recorte do jornal que anunciava o “Lourenstock” olhou, leu, sorriu, renovou a memória e a guardou com carinho na caixa de papeis. Naquela noite ele sonhou que havia digitado Lourenstock e aparecido uma reportagem sobre o Festival. No dia seguinte veio a lembrar do estranho sonho e, por curiosidade, digitou no google. Para alegre surpresa recebeu com a pagina do Orkut do Marcio Brum contendo varias postagens sobre o assunto, mas já velhas, de 2007... Ele me ligou de imediato e super feliz me contou o ocorrido. Tomei um gole de gim-tônica e passei a escrever sobre o assunto. Ele então tentou contatar o pessoal de São Lourenco e conseguiu, também via google, o telefone da locadora do Marcio, já ligamos varias vezes mas não o temos encontrado e deixamos recado com funcionários dele. Ontem, dia 5, conseguimos contato com o Jefferson Dieckmann, que reside em Curitiba...Finalmente, nos sentimos muito felizes em colaborar na reconstituição de um pedacinho da historia cultural daquele belo Município e, por extensão, do nosso querido Rio Grande e, ao mesmo tempo, retribuir ‘a galera de São Lourenco um pouquinho da tamanha alegria e amizade com que nos receberam naquela inesquecível noite. Abraço e muita Saúde e Alegrias a todos os amigos “Lourencianos”!


Rock and Roll will never die!!!




Jones e Claudio Machado, da "CASCA DA LARANJA"  "   (sic)




* Os meus agradecimentos ao Jones e ao Cláudio Machado pelo relato, pelas fotos e pela vontade de colaborar nessa empreitada de relembrar esta importante passagem da vida cultural e das raízes do rock sul-riograndense, que insistia em permanecer viva na minha mente!

Jefferson Dieckmann
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