domingo, 9 de outubro de 2011

Lourenstock - A história vista de dentro - Parte 2

E o relato continua...






"4. FESTIVAL LOURENSTOCK

4.1 ANUNCIO
Numa bela tarde de outubro (infelizmente não lembramos qual o ano, precisamos pesquisar mais), creio que era 1971, um bando de cabeludos vestidos, o mais próximos possível, de hippies, desembarcava em frente ao bar e armazém de nossos pais (meus e do Claudio) . Vivíamos numa casa grande, em Areião, a beira da estrada na zona rural de Cai, casa que também era a sede da “Casca da Laranja”. Era normal recebermos diariamente um bando de músicos para uma “jam”, vários amigos, fãs e vagaus curtidores de rock. Nossa querida Mae se preocupava em fazer café e servir a todo mundo do bando que, “laricados”, devorávamos tudo o que víamos pela frente e bebíamos toda a Coca-Cola do armazém de meu pai...
Naquele dia, nosso percussionista Cicero trazia um pequeno recorte de jornal que anunciava um festival de musica “ao ar livre” em São Lourenco do Sul, a beira da maravilhosa Lagoa dos Patos, onde eram esperadas 2 mil pessoas! Puxa era aquilo que estávamos esperando, a oportunidade de sair da casca, quero dizer, a “Casca” sair pra mais longe, para o sul do Estado, visto que as colônias Alemãs e Italianas do norte já nos conheciam e na Grande Porto Alegre já havia muitas bandas.

4.2 IR OU NÃO IR?
Lembro que o Magrao Sergio Engelmann profetizou em tom solene: “Bixo, e’ a “sacada” que a Casca tem pra cruzar o Guaíba e seguir rumo Sul, conquistar horizontes sulinos, Bixo, quem sabe atravessar a fronteira...” Aquilo na hora fez toda a diferença, pois o Magrao era uma espécie de profeta, sim, porque não chegar ate a Argentina!” Claro que ele comentava isso com olhar fixo em algum ponto do infinito e falava com a “boca-seca” (if you know that what I mean...) Sim, na hora aquilo fez todo o sentido e realmente todo mundo fechou.

4.3 ANIVERSARIO DA BANDA
Mas se o evento, ao tempo em que por si só se revestia de uma situação singular, aquela data era também particularmente especial para a Banda. Tinha sido na mesma noite que ha alguns anos atrás o então “Os Invictos” havia tocado seu primeiro baile, em 28 de novembro de 1968, e a gente comemorava todo ano naquele dia especial. Ainda conforme o nosso querido Adroaldo, grande organista da “Casca”, os astros estariam ao nosso favor, pois, sendo o dia de nosso aniversario, já teríamos atravessado o nosso “inferno astral” e isso certamente significava que iriamos para “as cabeças” no resultado do festival! A isto o Magrao novamente vaticinou: “Everything is Comming in our Ways, podes crer Bixo!” (algo como, tudo esta vindo em nossa direção, em nosso favor…), que era justo o titulo de uma musica de Carlos Santana e que e gente tocava. Cara, aquilo se revestia de um espécie de alinhamento astrológico! 
Sim, São Lourenco passava ali a ser todo nosso objetivo! Seria “muito tri” a gente participar do primeiro grande festival ao ar livre do RS! Aquele seria nosso Woodstock, ou melhor, Lourenstock!!! Alias foi uma grande sacada dos  “malucos de Saint Laurens”, escolher um nome totalmente dentro do contexto cultural da época. Sim, definitivamente “a Casca seguiria rumo sul”...

4.4 CASCA DA LARANJA OU DA BERGAMOTA?
Mas, havia um serio detalhe: como chegar lá? Grana ninguém tinha e ninguém andava com humores de patrocinar um bando de malucos cabeludos, tocando musica barulhenta e ainda, com um nome daqueles... A “Kombi” era cara e a gente precisava de duas, pois a banda tinha lá seus 8 músicos mais o pessoal do som, luzes e o bando de amigos que andava sempre com a gente, todos sem dinheiro no bolso, claro...
 E, se por acaso a gente estivesse também representando o nosso município num evento de nível  estadual,  será que a Prefeitura não poderia dar uma ajuda? Porque não tentar? Conversamos com o "Ge" que era motorista do Prefeito e era da nossa galera e ele achou que haveria grandes chances…Foi então escolhida uma “comissão” e marcada uma visita ao Sr. Prefeito Doutor Bruno Cassel que, como grande pessoa e amigo que era, nos recebeu com toda a atenção, cafezinho e água, e nos ouviu atentamente.
- Não posso liberar dois carros, mas posso mandar o “Ge” levar vocês com a Chevrolet pick-up e um tanque de gasolina extra. Me façam um requerimento explicando que irão representar o nosso município...”. Ao despedir-se ele inteligentemente ainda comentou: “ Casca da Laranja”...mas o Cai e produtor de bergamota, temos aqui nossa Festa da Bergamota...Laranja e produzida em Montenegro, não da pra trocar esse nome pra “Casca da Bergamota”?

Explicamos que não dava mais, então ele apertou nossa mão e ainda falou: Falem o nome do Cai lá. Depois eu vou ligar pro prefeito de São Lourenco pra ver se vocês falaram.
E reforçou: - Ganhem a coisa e me tragam a taca pro Cai ...(assim tipo futebol...)

Agora era só passar o chapéu, fazer alguma economia de cerveja e arrancar grana pra pagar a outra condução. Rapidamente foi inventado uma reunião dançante na boate do Clube Aliança de SS do Cai pra Casca tocar e arranjamos a grana pra “Kombi do Juarez Pereira”...estava assim resolvida a questão do transporte!

4.5 DA EXPECTATIVA
Resolvida a batalha do transporte, o resto era moleza, isso na empolgação, mas quando se parava e pensava um pouco, a coisa não era tão simples: primeiro, havia  uma questão de honra, era nossa afirmação como banda de nível estadual, segundo, já havíamos ganho outros festivais e isso aumentava a expectativa tanto nossa quanto de nossos queridos seguidores; terceiro, havíamos recebido a missão dada pelo Prefeito, tínhamos que trazer o caneco pro Cai...essas questões, na medida que o tempo passava, aumentavam nossa preocupação, principalmente nos momentos em que a gente estava “de cara”...
Depois outra, seria um festival de nível estadual, veiculado em jornais, o que certamente levaria boas bandas, grandes bandas, porisso a gente passou a ensaiar diariamente, tipo assim iniciando as 2 da tarde, parando as 6 pra ir ao colégio (final de ano...) e retomando a meia noite com escuta de discos e avaliando o que deveria ser melhorado. Depois dormíamos ate as 11 da manha...Aqui entre nos, tínhamos uma vida maravilhosa, só tocar, curtir e dormir...sempre serei grato a meus queridos pais e a Deus por ter vivido naquela época e daquele modo!!!

4.6 DO EQUIPAMENTO
A equipe de som e luz também se preparou, “engraxando” todo o equipamento...Naqueles tempos os eventos não tinham o que se chama hoje de “PA” que são os equipamentos de som de palco e que mandam o som para o publico. Cada banda tinha que levar todo o seu próprio equipamento, o que beneficiava as bandas grandes com mais grana e que possuíam melhor qualidade de som. As bandas pequenas acabavam penalizadas, pois o júri julgava o que ouvia, não adiantava a banda se rasgar tocando, sem ter um bom equipamento, o júri não iria dar ponto pelo que não ouvisse bem...
Assim, você tinha que ter um razoável equipamento e a gente ate tinha, mas para garantir a pegada, tomamos emprestado dois amplificadores “Tremendao II” Giannini, valvulados, eram ótimos amplificadores.
Nosso “set” era enato composto por:
Duas baterias “Pinguim Super 45D” (dois bateristas) – Claudio Machado e Tony Ewerling, tocando juntos ha um bom tempo os dois cabeludos eram bons no que faziam e tinham um show a parte, quando ao resto da banda parava e só os dois performavam por uns 5 minutos e ao final sempre arrancavam aplausos.

Duas guitarras (Snake e SuperSonic Giannini) – Jones Machado e Fausto Rosa – estávamos bem ensaiados e fazíamos bons duetos em solo.
Dois percussionistas com duas tumbadoras, bongos e outros instrumentos de ritmo – Cicero Holleben e Paulinho Reis – tocavam ate que o sangue escorresse dos dedos!
Orgao Eletrônico “Eletrochord” – Adroaldo Belmonte, tocava e cantava otimamente, era perfeccionista e quando o som não estava bom ele dava uns pontapés naquele pedal do órgão que não raro fazia sair fumaça...

Contrabaixo “Snake”– Reni Xavier tocava, cantava e era o gala da turma.
Na iluminação e “roadie” estavam Jorge Krammer, Pedro Heitor, Sergio Magrao e Getúlio Nunes - luz negra, conjunto de luzes stroboscopicas e um canhao tipo “spot-light”.
Amplificadores:    2 Super Thunder Sound – Baixo e Orgao
                               2 Tremendao II – Guitarras
       1 Tremendao II  com caixas auxiliares – Voz e microfones diversos

4.7 DA VIAGEM E DA CHEGADA


A viagem ate São Lourenco foi maravilhosa, mas aqueles 200 km custaram a passar, claro que para isso tínhamos abastecido as duas camionetas com bastante cerveja, conhaque, pão e salame para dar conta da “larica”…assim fomos e chegamos!


Lembro de uma pequena e simpática cidade, limpa e bem cuidada, bonitas casas no centro e um ar de praia que dava vontade de beber uma cerveja...A coisa era bem organizada, já havia lugar reservado para estacionar as camionetas, era uma espécie de “cancha” de esportes, se não me falha, haviam arquibancadas de concreto, bem iluminado, havia em algum lugar uma mesa com comida e bebida para os músicos, fomos recebidos por uma galera super alegre e simpática. Era uma noite de verão batida por um vento da Lagoa e pra onde a gente olhasse via uma meninada bonita e sorridente. Estávamos como “gansos novos na taipa do açude” ou melhor, da lagoa..."  (sic)


Continua...

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