sábado, 8 de outubro de 2011

Lourenstock - A história vista de dentro...

Durante muitos anos, o Lourenstock, primeiro festival de rock acontecido em São Lourenço do Sul - RS, na década de 70, permaneceu apenas na minha memória. Não haviam informações, fotos, nem opiniões sobre o assunto, até poucos dias atrás. Devido a postagens que fiz na Internet com o nome do festival, recebi o contato do Cláudio e do Jones Machado, respectivamente baterista e guitarrista da banda "Casca da Laranja", vencedora daquele festival. Para minha alegria e para que esta parte da história musical do Sul do Rio Grande do Sul não morra, estamos aqui contando essa passagem ao mundo.
Ontem, recebi do Jones, um "dossiê" escrito por ele, contando a história da banda e a sua participação no nosso grande festival da Zona Sul. Passarei, a partir de hoje, a postar em partes este relato, para que aqui fique o registro dessa passagem da nossa história.



"A BANDA CASCA DA LARANJA e o FESTIVAL LOURENSTOCK           


1. DA ORIGEM


A “Casca da Laranja” foi uma banda de rock, criada lá pelos idos de 1970, na cidade de São Sebastião do Caí-RS. Originou-se da banda “Os Invictos” que tivera inicio em 1968 e que era voltada ao baile, “reuniões dançantes”, festas de clubes etc. O repertório dos Invictos era basicamente as baladas dos 50, sambas e, logicamente, do iê-iê-iê...


Os integrantes, ainda adolescentes, influenciados por bandas de rock, Beatles, Stones e, claro, Woodstock já não se contentavam tocar repertorio “careta”, queriam tocar o que gostavam: Rock and Roll “Psicodélico” do final dos 60...


O nome “Os Invictos” já não condizia com a nova proposta musical e comportamental da banda, teria que ser escolhido algo mais psicodélico, mas, se a mudança de direção fora algo difícil, visto que muitos dos clubes  e “fãs” já estavam habituados ao antigo estilo, a escolha do nome renderia um bom tempo e varias discussões internas. Parecia que não havia algum termo que já não houvesse sido utilizado e que pudesse representar a nova fase da banda.


2. DO NOME


Foi então que um dos amigos da banda (Paulinho Reis), que havia sido fuzileiro naval e em uma de suas viagens tinha estado nos States tinha conhecido lá uma famosa casa noturna chamada “The Orange Peel” (pela pesquisa chegamos ao endereço  http://theorangepeel.net/about-the-orange-peel/), em uma rodada de cerveja e outras coisas mais, ele teve uma “visão” e propôs aquele nome, que foi traduzido então para “A Casca da Laranja”. Dado ao estado etílico da turma e a necessidade de se ter um nome, foi logo aceito, também por outras duas razoes: primeiro era um coisa da “onda” lá nos Estados Unidos, segunda, porque não significava absolutamente nada e certamente aquele seria um nome que nenhuma outra banda iria ter...


Naquela noite o novo nome foi comemorado ate a madrugada! Como o repertório já estava ensaiado, era só sair ‘a venda e tentar convencer algum diretor de clube que uma banda com aquele nome era uma banda confiável...

 

Apesar de oriundos de famílias humildes, não havia uma forte necessidade de se ganhar dinheiro, partindo para uma profissionalização total da banda, pois éramos estudantes e infelizmente a carreira musical era marginalizada, muito mais do que o e’ ainda hoje. Portanto, parar de estudar foi coisa que nunca nos passou pela cabeça, além do que precisávamos nos preparar para arranjar um emprego extra-musica... Dessa forma, bastava ter um ou dois bailecos por mês e já estava garantida a prestação dos equipamentos e algum trocado pra cerveja e cigarro.


3. CENARIO LOCAL


A gente precisava tocar, mostrar nossa paixão ao publico e tínhamos muitos seguidores tanto “caretas” quanto “cabeludos” e  ‘vagaus”. No inicio dos 70 havia um cenário musical interessante, jovem guarda, tropicália, protesto contra ditadura, psicodelia dos Mutantes  e, logicamente, uma geração de cabeludos que protestava contra a guerra do Vietnam e contra tudo que fosse convencional, ávidos por rock’n’roll, sexo e drogas também, claro, afinal estávamos nos 70, recém saídos do Woodstock...


Havia vários festivais pela redondeza. Em nossa cidade natal , São Sebastiao do Cai, havia Som Sebastian Festival, em Montenegro havia o Festival Montenegrino da Canção, em São Leopoldo havia outro e a então, “Casca”, participava de todos. Nos especializamos em festivais, de tal forma que sempre ficávamos na cabeça, no mínimo entre os três primeiros. Note-se que de cada festival participavam varias bandas, alguns dos eventos duravam duas noites ou mais de um final de semana, havia eliminatórias e por ai vai...


Era uma época maravilhosa para músicos, havia tantos estilos e novidades, quanto bandas. Cada cidadezinha, por menor que fosse tinha meia dúzia de conjuntos musicais. Naquela época a televisão mostrava o que surgia, ao contrario dos dias de hoje que só’ surge o que a TV quer mostrar...Talvez por isso tenhamos hoje chegado a um grau de marasmo e atraso musical de difícil saída ou reversão, todos sabemos do caos da nossa educação, cultura e nossa musica se encontram. A que ponto chegamos!"  (sic)



Continua...                                           


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