domingo, 8 de agosto de 2010

Identidade revelada (uma homenagem a todos os pais)

A cada manhã, após o banho, me aproximo do espelho para me pentear. É como se fosse um ritual para o início de um novo dia, de uma nova batalha. As mudanças no meu semblante são visíveis e ao mesmo tempo em que não passam incógnitas, me enchem de orgulho. Cada fio de cabelo tingido de branco pela vida e cada ruga cuidadosamente esculpida em meu rosto pelo tempo, contam uma história vivida. Vou até o quarto de meus filhos adolescentes, que ainda dormem. Logo os chamarei para levá-los à escola. Como é bom vê-los assim, dormindo. Remeto-me à época em que eles eram crianças e dependiam de meu colo para andar, de meu sorriso para se alegrar e de minha simples presença para que se sentissem seguros. Que saudades do tempo em que eu era o seu super-herói protetor. Durante todos esses anos procurei dar a eles tudo o que eu não tive: boa escola, roupas, brinquedos e a chance real de se prepararem para um futuro seguro e sem sobressaltos. Ao mesmo tempo em que eles abrem os olhos, minhas lembranças desaparecem. Hoje, embora tenham começado a vida neste mundo comigo, eles pensam que sabem mais do que eu. Pode ser até que saibam. Hoje eles dominam o conhecimento e a tecnologia. Percebo que suas companhias já não são os filhos do vizinho que brincavam de carrinho e bola em nosso quintal e seus brinquedos foram substituídos há muito, pelos computadores e aparatos eletrônicos. Os meus conselhos, outrora seguidos, hoje são motivo de chacota e que eles fazem questão de não ouvir, principalmente perto de seus amigos.
Respiro fundo, engulo tudo isto e sigo cumprindo o meu papel de pai, conduzindo, orientando e aconselhando. Rogo a Deus, que em meio a tanta informação e conhecimentos que meus filhos adquirem atualmente, seja possível a abertura de uma pequena janela em suas mentes para que as cenas e sensações de suas infâncias sejam reavivadas, nem que seja por um instante. Assim eles despertariam novamente sentimentos mais humanos e, sobretudo, lembrariam que são meus filhos. Agora que minha identidade secreta foi revelada e que meus super poderes acabaram, que eu possa ainda reunir as minhas forças de simples mortal e continuar emprestando-as a eles, mesmo que isto continue lhes passando despercebido. Afinal, não é necessário ser super-herói, basta tentar cumprir a bela e trabalhosa missão de ser pai...!



16/10/2007
20h 03min


http://recantodasletras.uol.com.br/homenagens/2424867
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