terça-feira, 29 de maio de 2012

Lourenstock - a história continua...



Há anos eu lembrava de um festival de rock intitulado "Lourenstock" (uma clara alusão e homenagem ao grande e histórico "Woodstock"), acontecido em minha cidade natal, São Lourenço do Sul - RS no início dos anos 70 (1971 para ser exato). As informações, porém, eram poucas e quase ninguém lembrava ou tinha dados concretos deste episódio da história do rock sul riograndense. A roda da tempo gira e, com o auxílio da Internet, acabei por ter contato com o Jones e o Cláudio Machado, integrantes da banda " Casca da Laranja", vencedora do referido festival, que contaram nesse blog a sua versão da história do "Lourenstock", versão esta vista de cima do palco, entre os acordes musicais e a adrenalina que é se apresentar em público fazendo o que se gosta, que é tocar rock. Pois bem, tenho aqui, hoje, o depoimento de alguém que, além de estar entre os organizadores do festival, escolheu o seu nome! Trata-se de Jorge Lourenço Rocha, hoje um conceituado psicoterapeuta radicado em Florianópolis, a bela ilha capital do estado de Santa Catarina. Passo a descrever a seguir, o depoimento escrito do Jorge:

      “E então Jefferson, aí vai o que talvez seja o primeiro capitulo da História do 1º Festival de Bandas de Rock de São Lourenço do Sul, O Lourenstock.
      Eram 6 amigos, amantes e desesperados por Rock, por Musica. Tínhamos um sonho. Montar uma Banda tipo Santana, ou algo parecido. Como sempre o Burro começa por ele mesmo. Eu, Jorge Lourenço Rocha, não tocava nenhum instrumento, gostava de cantar, não sei se cantava bem, mas, gritava bastante, e isto nos parecia fundamental para Banda. Além disso, era intelectual, principalmente, depois do terceiro ou quarto "baseado", tinha idéias brilhantes, o que me rendeu o apelido de Cabeça, e além disso, era um Trator, quando colocava uma coisa na cabeça, ela acontecia, mesmo que tivesse que atropelar o mundo. Gustavo (Tatau), Percussionista, em sonho e na vontade, o máximo que tocava, eram algumas latas, onde batucava, enquanto ouvíamos os velhos LPs de Rock em uma Vitrola portátil, ou em um gravador de fita cassete, assim como eu, Tatau também gostava de elocubrar grandes idéias e projetos, animado pela erva maldita. Jorginho ( Jorge Correa), grande musico, fazia o que queria com uma viola, se fosse de 12 cordas então, era loucura, o cara era dos melhores, além disso cantava bem. Como tudo tem que ter seu contrapeso, Jorginho era careta, nem fumávamos na frente dele, para nós, amantes da erva, um louco de cara, figura mais do que necessária na Banda. Jaubo, um monstro, tocava qualquer instrumento, oriundo de uma família de músicos, ele respirava musica. Quando tinha-se que fazer algo musicalmente sério, quem dava o caminho era ele. Assim como Jorginho, louco de cara. As vezes me parecia que estava chapado, mas nunca usei drogas com ele. Shade ou Xade, grande violonista, introspectivo, meio deprê as vezes, mas grande intelectual, assim como eu e Tatau, escrevia bem, e fumava um baseado maneiro, eu diria, que era um cara enigmático. Irineu (Neuginho), outro musico fantástico, assim como Jaubo, tocava vários instrumentos, mas como era Gaiteiro, o Rock não era muito a praia dele, ficava entre a MPB, Nativista, Regionalista e Gospel (na época, musica religiosa mesmo). Também era caretão, mas bebia como um Camelo, na realidade eu bebia junto (também). Este grupo de amigos, se reunia, para beber, fumar maconha, falar de musica, cantar, tocar, e fazer os projetos da montagem da Banda de Rock, que nunca saiu do mundo das idéias. Participamos de alguns festivais da canção, e nossa conversa favorita era Woodstock, o festival dos festivais. Sem dúvida, quando a "chapação" era grande, as idéias delirantes flutuavam em torno de se fazer algo parecido. Afinal, éramos, ou pensavamos ser, parecidos com os caras que organizaram Woodstock com a cara e a coragem.
      O tempo passou e o sonho continuou. Já no segundo grau, antigo científico, na Escola Integrada de Segundo Grau de São Lourenço do Sul, da turma toda, sobramos eu, Jorginho, Tatau e Irineu. Sendo que eu era o presidente do Centro Cívico Tiradentes, uma espécie de Grêmio Estudantil, que servia aos moldes da Ditadura. A professora Verinha, era nossa Conselheira, o que era ótimo, acho que ela não usava nenhuma droga, mas tava sempre na nossa pilha, tinhamos o apoio dela para fazer qualquer evento, e ela pegava junto, tava lá para o que desse e viesse. Não existem mais professores como ela nos tempos de hoje. Um exemplo para a Galera de hoje.
      Foi nesta pilha, que de papo em papo, a idéia do Festival evoluiu, e em uma "reunião"( queimação de fumo), no meu quarto, eu e Tatau resolvemos convencer o Jorginho a definitivamente comprar a idéia do Festival, e eu falei para o Tatau. Bicho, prá isso ser como deve ser, temos que chamar de LOURENSTOCK. Quem sabe a galera dos EUA não houvem falar e resolvem vir também. Dá para imaginar a esta altura, quantos baseados eu ja tinha fumado?
      O pior de tudo, é que Tatau, topou, e não precisou mais do que 5 min. para o Jorginho comprar a idéia, e a incorporou tanto, que ele foi figura fundamental em tudo. Toda a parte que envolvia os contatos com bandas, escolha de juri, e outros detalhes no que diz respeito as Bandas, ficou por conta dele. Nos reunimos muitas vezes, traçamos alguns planos, e fomos falar com a Professora Verinha. depois conto o resto.
      Se desejares, colocar tudo no Blog, fica a vontade.“ (sic)




      "Esta galera que está aí, foi quem meteu a mão na massa para organizar o LOURENSTOCK, Turma da Escola Integrada de 2º Grau de são Lourenço do Sul. Acho que a foto foi em 1970 ou 71. O de calça Jeans e Casaco do Exercito Americano, devidamente usado por alguém na Guerra do Vietnam, adquirido em lojas especializadas nestas tralhas, na época chamadas( as Lojas) de Lixo. E o outro com o cabelo também meio Black é o Jorginho Correa." (sic)


      Enfim, a história que já tinha um corpo, está começando a ter um rosto. Este é, sem dúvidas, mais um pedaço dos acontecimentos que fizeram surgir o "Lourenstock", festival que, definitivamente, marcou positivamente um grupo de jovens de uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul. Jovens esses, que ousaram fazer rock em plena ditadura militar, que a tudo cerceava no Brasil daquela época. 


      *****


Postar um comentário